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Showing posts with the label Contos

O Sorriso

Os cabelos dela paralisados no ar, o perfeito contraste entre o verde do seu vestido e o tom pastel da sua pele, os olhos fechados, o mundo acabando... Vi a fotografia quando a observava dançar. Era linda dançando. Parecia que o universo todo se esgotava dentro dos seus passos. Me senti vivo vendo aquilo. Desejei ela para o resto da minha vida. Desejei morrer vendo-a sorrir. Desejei estar para sempre ao lado dela. Pena que não estava com a máquina fotográfica para registrar aquele belo momento. Pena. Eu a conheci quando minha vida tomava o rumo em meio a putas e goles incessantes de álcool. Escrevia meus versos e andava sem rumo em frias e escuras noites. Ela usava um vestido preto, um par de óculos de grau e seus cabelos loiros caiam na altura do ombro. Olhos grandes de quem tem muito o que contar, tinha por volta dos 1,60m e uma bela fisionomia. Não era a mulher mais bonita do mundo. Nem a mais bonita entre as que me relacionei. Quando ela se aproximou para pedir um cigarro, senti qu...

A Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Poeta

Reluzia um vermelho intenso em meio aquela imensidão verde, de sons de pássaro e do chacoalhar das folhas. Estava eu, encostado numa castanheira de troncos frondosos pensando na vida e observando aquele estranho vermelho mover-se para lá e para cá em saltos de gazela. Aproximei-me para entender o que estava acontecendo e vi o céu. Era bela. Bela de uma forma tão forte que me tocou a alma e balançou as minhas estruturas físicas até ao ponto de quase desabar em seus pés. Mantive a postura. Tinha olhos azuis intensos, usava um bonito cachecol vermelho e possuía um rosto de traços finos e leves com um desenho labial que era uma verdadeira sacanagem comigo. Ô boca. O anjo que estava a minha frente carregava uma singela cesta adornada das orquídeas mais vivas que já vi. Senti vontade de aproximar-me e perguntar a sua graça. Mas me contive e fiquei ali. Interromper aquele momento seria uma vã tolice. Não devia ter mais de um metro e setenta de altura e tinha um jeito de olhar e sorrir que m...

O Canto

Eram belas aquelas penas brancas. De uma forma bem confusa podia perceber que elas refletiam a luz do sol e iluminavam ainda mais aquele lugar sujo e feio que morávamos. Ela andava num molejo, num gingado que chamava a minha atenção e me fazia desejá-la de uma forma que talvez ela não imaginasse o quanto. Seu olhar, por vezes, cruzava o meu, mas era carregado de um desdém e de uma superioridade que baixava a minha crista e me fazia sentir um moleque recém saído do ovo. Não entendia porque, de certa forma, ela não prestava atenção em mim. Talvez não fosse belo o suficiente para conquistar o seu coração, ou ainda fosse pequeno demais para conseguir o interesse dela. O certo era que eu precisava aprender a cantar antes de tentar qualquer coisa com aquela beleza branca que passava tardes naquele caminhar rebolado à minha frente. Cantar porque eu sabia que ela gostava de cantar e gostava ainda mais de parar e observar os machos cantando belas canções que falavam de amor, de perseguições e ...

O Samba

(27/01/06) Aquele som estava alto e tudo estava girando. Aquele samba contava mais uma história de amor. Era um samba forte e lindo. Minha cabeça estava leve, aliás, meu corpo inteiro estava leve, efeito do excesso de álcool. Estava perdido no meio de uma multidão feliz, sambando aquela poesia e bebendo daqueles líquidos maravilhosos que fazem a terra girar. Meus companheiros estavam por ai, em algum lugar próximo ou distante, sambando, sorrindo e bebendo. Eu estava sozinho a ouvir aquela bela poesia cantada, que ninguém parecia prestar a atenção, no lirismo de sua letra. Ah, como era belo aquele samba. A bebida estava acabando. Eu não me importava. O que importava era aquele barulho, aquele torpor, aquele samba perfeito. Minha consciência já não estava comigo. Só o samba. Algumas lágrimas rolavam quando percebia a genialidade do compositor. Aquele samba era feito para mim, falava de mim, dos meus amores, das minhas dores, da minha vida... Era agressivo na batida. Era sutil e belo nas ...

O Natal de Luís

Dez horas da noite. Véspera de Natal. Luís esperava ansiosamente a virada, o momento mágico, a hora. Vestia uma camiseta azul, um short cinza e um tênis branco e meias que cobriam parte da sua canela. Tinha olhos castanhos brilhantes, cabelos encaracolados e um sorriso magistral. Seu porte físico era comum a de uma criança de 7 anos. Pequeno e corredor. Corria pela casa toda. Corria porque o tempo era curto demais para as coisas boas. Corria porque gostava de se sentir ofegante. Corria até quase cair de tanto correr. O natal é um momento particularmente especial para Luís. Não só pelos presentes, mas pelo cheiro do natal. Cheiro de pessoas felizes, sorrindo umas para as outras, presenteando os parentes queridos, cheiro da sua família, unida em torno de uma árvore, conversando alegremente, o cheiro de primos brincando, o cheiro do vento que soprava com mais força nessa época, o cheiro dos filmes de Natal que passavam e passavam na televisão. E os presentes, o cheiro dos presentes. A cer...

A Intuição

- Duas rosas brancas. A mulher, ainda estranhando um pouco o pedido daquele rapaz que aparentava ter algo em torno de 20 anos, esboçou algo parecido com um sorriso e pediu que esperasse um momento. Passaram um, dois, três momentos, e ele ainda aguardava o seu pedido. Ansioso para receber as rosas e depois pensar o que fazer com elas. Seu joelho tremia levemente, num sinal de desconforto e pressa. O pedido das rosas brancas veio como um impulso. Ele simplesmente saiu do seu pequeno apartamento com isso na cabeça. Duas rosas brancas. Duas rosas brancas. Duas rosas brancas, para quê? Não sabia. Tinha certeza que teriam que ser 2, rosas e, ainda por cima, brancas. - Aqui estão, custam 8 reais. Oito reais!? Por duas rosinhas brancas? Que absurdo, pensou, mas o impulso era mais forte de que o sentimento suvino que lhe abateu ao saber do preço das rosas. Tirou da carteira uma nota de 10 reais, esboçou algo que queria parecer com um sorriso simpático. Esperou o troco, quando a moça falou: - De...

Então Voe

- Então voe! Gritou o homem de barba cinza, incrédulo com a audácia do menino. Marcos era um rapaz teimoso. Sabia que podia voar e não era um velho de barba cinza que o faria desistir. Dentro dessa convicção; pulou do teto de sua casa. De início, teve a súbita sensação de vôo, mas de repente uma força estranha o puxou para baixo com tamanha intensidade que sentiu-se sugado em direção do chão. Acabou numa fratura no braço esquerdo, uma perna quebrada e muita dor de cabeça. - Tá vendo rapaz teimoso! Disse o homem de barba cinza com aquele ar de superioridade dos adultos frustrados - Tá pensando que é o que? Gente não voa, moleque. Marcos teve vontade de gritar e mostrar que quase conseguiu. No entanto, vendo que o homem de barba cinza, afinal, tinha razão decidiu sabiamente calar-se ir ao hospital para curar aquele braço enfermo e perna direita que incomodava bastante. Voltando do hospital, Marcos decidiu estudar os motivos pelos quais o vôo não fora bem sucedido. Subiu até o telhado, es...

A Bela Adormecida

Eu a admirava fazia alguns meses. Cabelo avermelhado, altura mediana, olhos castanhos, boca carnuda e aquele jeito de andar e de olhar que me tiravam do sério. Ela sabia muito bem da minha admiração física por ela. Não tinha como esconder isso dela. Era a mulher mais bonita que eu já havia visto e, como bom poeta, sempre acreditei que o que talvez seja uma das melhores coisas que a natureza fez, uma das mais esplendorosas, é a beleza e a sutileza de uma mulher. As mulheres tem um jeito único e uma forma de beleza que até nas mais feias se encontra. É impressionante a perfeição da obra que é o ser feminino. E as mais belas então... É pura covardia com os homens como eu que são obrigados a passar o resto da suas vidas a admirar essas belas mulheres. E por ela, eu passaria o resto da minha existência apenas admirando-a no seu andar, no seu falar e no seu pensar-em-nada tão belo, tão sutil, tão poético. E, naquele dia, eu não aguentava o tamanho prazer de vê-la, nua, dormindo na minha fren...

A Praia

Andava no calçadão de Ponta Negra, todo assim, desarrumado. Bermudas largas, camiseta e havainas. Ele andava olhando os carros e observando as pessoas que caminhavam, esportivas, pelo calçadão, mesmo sendo por volta das 19 horas. As pessoas usavam roupas esportivas e caminhavam com aquele jeito esportivo, inalando todo o dióxido de carbono dos carros que passavam por ali, àquela hora, num trânsito que era na verdade um emaranhado de carros buzinando e soltando toneladas de dióxido de carbono que as pessoas esportivas que caminhavam ali estavam inalando. Ele queria simplesmente dar uma passadinha na praia, a pé, olhar a lua, sentir a areia e ver todo aquele movimento da praia de Ponta Negra a noite, com aquelas luzes amarelas e as pessoas saindo do mar e conversando nos banquinhos. Ele todo largado andava rindo por dentro, ria de si mesmo e das pessoas que caminhavam inalando dióxido de carbono e ria também dos carros embaralhados e buzinando. Ele achava graça daquilo tudo. E ria dele m...

Maria, Maria...

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Tinha um par de belos olhos castanhos, devidamente enquadrados em um rosto uniformemente equilibrado, desde o tom da pele ao posicionamento da boca. Maria tinha aquele jeito de menina, aquele falar descontraído e aquele olhar de quem vê o mundo sob a ótica ingênua de uma criança. Mas não lhe era diferente, como na grande maioria das boas mulheres, aquele jeito de andar, como se estudasse a forma como daria cada passo, aquela discrição contida quando cortejada e aquele riso, de meia boca, quando, finalmente, deixa-se cortejar ou simplesmente dava um fora. Aliás, as boas mulheres são disso, umas sonsas. Se fazem de besta, fingem que não é com elas, estudam cada passo do macho que tenta, de todas as formas possíveis, conseguir um punhado de sua atenção e, quando finalmente, resolvem dar-lhe a atenção e deixam-se cair nas artimanhas do homem que tentava conquista-la, dão aquele sorriso de deboche, de meia boca. Porque a situação, para elas, sempre esteve sob controle. Maria era dessas mulh...

O Destino de João

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João tinha doze anos e meio, como costumava informar, ao ser indagado sobre a idade. Era um menino franzino, pobre, de cor morena e olhos de mel. Jogava futebol todos os dias no velho campo de terra batida da sua comunidade e depois corria para almoçar a boa comida de sua mãe, mas que nem sempre era servida por causa do danado do dinheiro. Depois disso passava a tarde com crianças menores, porque mãe nunca deixava andar com os meninos mais velhos. Dizia ela, que eles faziam coisas esquisitas e só arranjavam problemas. João queria ser médico. Aliás, não queria apenas ser médico, afirmava sempre que iria ser médico. Era um menino estudioso, o orgulho da sua família. Sua mãe não sabia quem esse menino puxou, afinal, seu pai era um alcoólatra e ela mal tinha terminado a terceira série. O menino já estava na sétima série, um ano adiantado e sempre voltava para casa com as melhores notas e elogios dos professores. Em casa, quando ficava com as crianças menores, tratava delas sempre com dedic...