Por que eu sou a favor da TV Pública?

Mais ou menos há um ano e meio atrás eu trabalhei por duas semanas como estagiário de uma TV daqui de Natal. No meu segundo dia de trabalho, um político-jornalista (bicho comum por aqui) foi demitido de outra TV daqui por anunciar oficialmente que apoiaria um candidato para deputado federal que não era o filho do dono da emissora. Eu fiquei puto e achei uma sacanagem com o político-jornalista que, apesar de adotar posições políticas e éticas completamente diferentes da minha, foi demitido por apenas expressar a sua opinião pessoal. Bem, por ingenuidade, sugeri que este caso fosse tratado no telejornal da TV onde eu trabalhava. Em meio a um silêncio e caras de constrangimento dentro da redação, a chefe de reportagem falou que não poderia se pautar aquilo porque era "anti-ético" e a outra emissora, por ser privada, tem a liberdade de demitir ou contratar quem quiser, seja lá que posição política tal pessoa tome.

Bem, depois de ouvir isso, reservei-me a minha posição de mero estagiário e não mais comentei a questão. Mas não deixei de pensar sobre isso. Para mim, um jornalista ser demitido apenas por revelar uma posição política contrária ao veículo onde trabalha é, no mínimo, um atentado a liberdade de expressão do cidadão. Jornalistas não são obrigados a escolher os seus candidatos de acordo com os interesses empresariais e políticos de onde trabalha, mas sim de acordo com uma escolha pessoal, subjetiva e livre. Pelo menos é assim que a minha cabeça funciona. E demitir um profissional por esse motivo constitui uma brecha muita perigosa para os jornalistas aqui do Estado. Agora só trabalha na empresa A se votar em candidato X? E os valores do bom jornalismo que se danem.

Mas depois de pensar, constatei que o pior, ao meu ver, não foi a demissão. Mas sim o fato da outra empresa de TV não considerar aquilo como pauta. Pelo que eu aprendi, a pauta é um determinado assunto que tenha relevância para a população, que siga determinados critérios que levam em conta o interesse social do assunto a ser noticiado. Considero que a demissão puramente política de um jornalista de uma empresa de TV controlada por políticos, tem um interesse social absurdo. Imaginem se a população soubesse que é inconstitucional um político deter uma concessão de Rádio e TV. Imaginem ainda se o povo soubesse que esse mesmo caba de peia demitiu um profissional porque ele afirmou que por razões pessoais votaria em outro candidato. Com toda certeza, pensaria duas vezes quanto a votar no dono da TV ou no filho dele. Afinal, se ele é anti-ético até na sua empresa, imagine ocupando um cargo público. E a emissora não tem coragem de publicar uma notícia dessas, de discutir mídia, de tentar melhorar a forma como o jornalismo é feito por aqui?

Não teve meus caros leitores. E não teve sabe por quê? Porque, no final das contas, ela também é controlada por políticos (certo que era de oposição ao da outra emissora, mas políticos). Porque é interesse político-eleitoral que a mídia potiguar seja sempre pequena, medrosa, com o rabo preso, vivendo às custas da babação à medíocre elite política e econômica local, sem nenhum vestígio de independência. E, se formos pensar friamente, à nível nacional, a imprensa não é muito diferente. Tá certo que na chamada grande mídia, é possível, com bastante dificuldade, ter uma certa independência em relação ao veículo e mais profissionalismo na relação profissional-empresário. Mas ainda está longe do ideal. Por isso que eu defendo com unhas e dentes a TV Pública. Se realmente for como dizem, se realmente não tiver nenhuma ligação com o governo que está no poder, é bem possível que tenhamos um jornalismo e uma programação em geral de qualidade o que fará com que os empresários se mexam e prezem mais pela qualidade da informação do que pelo interesse político dela. Porque, depois da educação, é isso que o Brasil mais precisa, informação de qualidade.

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