Festival DoSol 2008

Enquanto o MADA deste ano colecionou críticas pela falta de critério na seleção das bandas independentes, o DoSol surpreende. No site oficial, o produtor Anderson Foca vem divulgando as bandas que tocarão nos dias 1 e 2 de novembro na Rua Chile e de 11 a 14 de novembro na Casa da Ribeira.

Dentre as potiguares, Foca teve a sensibilidade de pegar o fino do que é produzido por aqui. Brand New Hate, Lunares, Camarones Orquestra Guitarrística, Barbiekill e Rosa de Pedra são as bandas que ultimamente movimentam mais o cenário musical potiguar. Para mim, ainda faltava Bonnies e Automatics para chutar o pau da barraca. Como as duas já são veteranas, entendo o ausência delas na programação.

Além delas, temos confirmado: Forgotten Boys (SP), Torture Squad (SP), Carbona (RJ), Mukeka Di Rato (ES) e a banda norte americana The Donnas. Uma escalação que vale já o ingresso para todos os dias do Festival.

Ainda ha mais para ser divulgado e sinto cheiro de novidades por vir. Pelo andar da carruagem, tudo indica que este ano o Festival DoSol será um dos melhores do nordeste e o melhor de Natal.

Veremos.

Era uma Vez Breno Silveira


Quando o longa "2 Filhos de Francisco" de Breno Silveira foi o filme brasileiro escolhido para representar a nação canarinha no Oscar 2006, deu para sentir forte cheiro de peixe no ar. Peixada. Sob a batuta da Globo e a fama de uma das duplas sertanejas mais populares do Brasil, o mais-ou-menos longa entrou na lista de filmes brasileiros rejeitados pela academia Hollywoodiana com o seu devido merecimento. Dois anos depois e sem peixe assado, Breno tenta a sorte com outro mais-ou-menos: "Era uma Vez...".

A história é de Dé, morador do morro do Cantagalo no Rio de Janeiro que trabalha num quiosque de vendas de cachorro quente em Ipanema. O jovem apaixona-se por Nina, menina nascida em berço de ouro que mora num apartamento de luxo. Os dois namoram, tem todo aquele romance e problemas por serem de origens diferentes. Ai já viu: família não quer. Problemas. Problemas. Tráfico de drogas no meio disso tudo e toda essa novelinha até um desfecho tragicômico.

Para um filme em que o diretor brasiliense resumiu de "Cidade de Deus intimista" ficou mais parecido com um tentativa frustrada de ser um Sheakspere contemporâneo. As técnicas de edição podiam ser melhores exploradas e o roteiro, repensado. É uma pena que muitos filmes brasileiros insistem na fórmula narrativa e de produção das novelas para dar certo. Cinema é outra linguagem. No final das contas, "Era uma Vez..." termina sendo um conto de fadas mal contado.

Apesar disso tem uma boa fotografia, um elenco estável e uma trilha sonora que desce, (a não ser pelo Claudinho e Bochecha na cena em que o mocinho beija a sua amada). Vem também recheado do estilo documentarista de fazer ficção que é a vanguarda atual do cinema brasileiro e muito bem explorado por diretores como Fernando Meirelles e Walter Salles. E que em outubro terá outro estreante: Bruno Barreto. Pronto, só isso. O resto são alguns detalhes copiados de filmes como "Tropa de Elite" (o caso da maconha) e "Cidade de Deus" (o baile funk e o morro) e os outros "filmes de favela" insistentemente lançados todos os anos no mercado cinematográfico brasileiro.

No meio disso tudo o destaque positivo é a referência que o filme faz ao livro-reportagem "Cidade Partida" de Zuenir Ventura e também o ator Thiago Martins, que interpreta o protagonista. Fora isso e, agora, sem peixada o novo longa do ex-diretor de fotografia deverá ter um destino não tão glorioso como "2 Filhos de Francisco". Uma pena, mas merecido.

Só espero que o badalado "Linha de Passe" de Walter Salles, que estréia este mês no Brasil (não sei em Natal), não decepcione.

O jornalismo que forma

A primeira vez que tive contato com Gabriel Garcia Marquez foi na blogosfera. Li, no falecido e-digitais o conto "Avião da Bela Adormecida" e foi amor à primeira vista. Meu segundo contato foi com uma notícia dizendo que ele acabava de lançar "Memórias das Minhas Putas Tristes". Corri para livraria e comprei o livro. Depois li quase tudo o que ele havia escrito. Hoje considero o colombiano o meu autor preferido.

Eu comecei a me interessar por literatura e jornalismo cultural, quando eu tinha dez anos e estava em Brasilia. Na casa do meu pai tive contato com a edição de domingo do jornal "Correio Brasiliense". Folhando aquele objeto estranho, encontro um caderno mais estilizado. Batata. Toda vez que eu abria um jornal, procurava esse caderno e sempre o lia.

Foi assim que conheci os grupos de teatro de Natal. Era dessa forma que iria procurar o filme que ia assistir. Lendo o jornal, comecei a querer escrever igual. Para isso, comecei a ler. Primeiro Harry Potter e Senhor dos Anéis. Depois Machado de Assis e Graciliano Ramos (nesse meio tempo passei a me interessar por rock também). Não sou de uma família que cultiva o hábito de leitura. Os livros que minha mãe tem eram todos religiosos. E ela não lia. Não convivi com meu pai. Com exceção da minha avó e de um tio distante, ninguém da minha família lia.

Tive a mesma educação que meu irmão teve. Ele não se interessa por literatura, nem por jornalismo. Posso dizer hoje que fui (e ainda sou) 'formado' culturalmente pelo jornalismo cultural. Por meio do jornalismo, conheci a maior parte dos livros, das bandas e dos filmes que gosto hoje. A partir das revistas que leio e dos blogs que visito, eu escolho qual filme assistir ou que livro vou ler. Ainda me formo culturalmente pelo jornalismo. Infelizmente os jornais natalenses hoje em dia não têm mais opinião. São feitos a base de releases enviados diretamente pela assessoria de grupos culturais. Ele não forma e nem informa ninguém. É um jornalismo acomodado.

Formar não é ensinar a ler. É mostrar para o leitor que existe produção cultural, é instigar o leitor a pensar sobre determinada obra de arte, sobre determinado filme. É fazê-lo ver que ir ao teatro é bom, que ler um bom livro nos engrandece. É escrever com segurança, clareza e inteligência suficiente para conquistar o leitor e fazer com que ele, ao menos, procure a editoria de novo. Mesmo ele não gostando de leitura. Um texto bem escrito seduz. O jornalismo cultural tem esse poder. Pena que uma série de 'escribas' acreditam que a linguagem e o objetivo dessa editoria é para escrever apenas para os 'cults'. Pena.

O jornalismo, sobretudo o cultural, tem a sua função na educação. O jornalismo atinge a massa, cria opinião. Fazer jornalismo é também informar o leitor que Machado de Assis é o maior romancista brasileiro, ou que Chico Buarque também pode ser um grande escritor. É mostrar para o leitor que existe qualidade no cinema brasileiro atual. É, sobretudo, instigar a curiosidade do leitor. A partir da curiosidade, ele poderá alçar novos vôos. Grande parte da "falta de cultura" do povo é culpa da mídia. Ela não instiga. Não faz pensar. Repete a agenda cultural. Não é a toa que os jornais hoje vendem pouco. Eles não são mais instigantes como antigamente e, besteira por besteira, muita gente prefere ficar na frente da TV. É mais fácil.

Os potiguares talvez participariam mais da cultura local, se os meios de comunicação ressaltassem que aqui temos um grupo de teatro premiado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Um dos mais importantes prêmios do país. Ou que temos um escritor do quilate de Nei Leandro de Castro. Dizer que temos grandes músicos potiguares, também não é pecado. O problema é que há um ciclo vicioso, os ditos jornalistas culturais da cidade acham que o povo não se interessa por cultura e continuam escrevendo apenas para o seu grupinho. Os empresários pensam da mesma forma e insistem em continuar a rotina de publicação de releases nos cadernos de cultura. E o povo continua desinformado e sendo chamado de idiota por 'cults' e empresários.

O terceiro e chuvoso dia do MADA

Quando a produção decidiu mudar a data da edição de 10 anos do MADA de maio para agosto foi com o objetivo de evitar as chuvas. Em Natal, o período de chuvas dura normalmente de maio a julho. A produção só não contava com um ano atípico na cidade. São Pedro não poupou água. Começou tímido com um chuvisco no início do show de Cordel do Fogo Encantado para culminar num toró que durou o resto da madrugada. Uma pena para Josh Rouse e Seu Jorge, que fizeram bons shows para quase ninguém.

A primeira banda a se apresentar no último dia foi a potiguar Rosa de Pedra, que contou com reforço do grupo de dança Cia Xamânica. Eles tocaram as 21h, enquanto eu estava na parada de ônibus, a mais de uma hora, esperando o bendito 56. Não vi, mas pelo que disseram, não perdi muito.

Me parece que o que eu realmente perdi foi o som dos paraibanos do Sem Horas. Um rockability muito bem executado. Tudo culpa do maldito sistema de transporte público de Natal, que não permite o cidadão a deixar o carro em casa para se divertir a noite com segurança e eficiência. Tristeza.

Enfim, cheguei assim que os cariocas do Macanjo subiram no palco. Não gostei da banda. O show foi animado, o público se divertiu. O som é bem executado, mas as músicas são ruins, parecem trilha da novela Malhação e coisas do tipo. É aquele maldito pop óbvio. Sinceramente, as bandas independentes das edições anteriores do MADA eram melhores.

Depois de Macanjo, os animados mineiros do Falcatrua subiram no palco. Confesso que gostei do som deles. Ainda ficou muito longe do nível das apresentações das bandas independentes do ano passado. Fizeram alguns covers, animaram o público que os assistiram. Vale ressaltar: bem maior do que a platéia da quinta e da sexta-feira. Destaque para o vocalista da banda numa empolgação tocante.

A Mallu Magalhães entrou no palco um tanto tímida, com aquele jeito de criança, mas fez um show muito bom. O primeiro, realmente empolgante, na noite. Já é clichê falar que a menina esbaja talento ou é um hype. Isso todo mundo sabe. Gostei de vê-la no palco, um acerto da produção, que poderia ter sido maior se, logo depois dela, Josh Rouse tocasse.

Quando ela saiu do palco, o céu ameaçava fechar. Cordel do Fogo Encantado entrou abençoado por uma chuvinha tímida que refrescava a sensação de calor presente na platéia. A cenografia do palco e a iluminação estavam perfeitas. E isso vale um parêntese, um dos grandes acertos do MADA neste ano foi essa preocupação cenográfica, primeira vez que acontece na cidade. O show de Cordel foi aquilo que todo mundo esperava. Um espetáculo. Na minha opinião, o melhor show do festival. Com direito a um público encharcado implorando por mais uma música.

Cordel saiu no meio de uma tempestade. A essa altura já chovia e ventava muito. Josh Rouse, um dos shows que mais queria ver, tentou emplacar com o seu folk com uma pitada de referências latinas. Mas o toró atrapalhou tudo. E, como não bastasse, o pobre do Josh ainda teve que tocar depois do espetáculo do Cordel. Função ingrata. A produção poderia muito bem deixá-lo para tocar depois da Mallu e fechar com Cordel e Seu Jorge. Até por uma lógica de sonoridade e platéia. Infelizmente, só alguns gatos, literalmente pingados, ficaram para aproveitar o show de Josh. Muito bom, aliás.

Quando o pobre do Seu Jorge entrou, a maior parte do público ou já tinha debandado, ou estava na tenda curtindo o bate estaca. Mesmo assim o carioca conseguiu fazer uma boa apresentação, animou os corajosos que encararam o dilúvio. Tocou Jorge Ben Jor e alguns clássicos. Não posso falar muito porque, neste momento, eu estava encharcado, na tenda eletrônica, tentando me esquentar com o abafado e a quantidade de pessoas que havia lá e rezando para que a minha dor de cabeça e tosse constante não se transformasse em algo pior.

Para fechar, ainda rolou Montage (CE) para os corajosos. Atração surpresa, divulgada dias antes do Festival. A essa altura, eu estava num táxi a caminho do meu chuveiro elétrico e de roupas quentes, para depois dormir o domingo inteiro. Seria bem legal, se São Pedro não tivesse mandado tanta água.

O saldo final do MADA foi positivo. As headliners, sem dúvida, foram as melhores. Em compensação, as bandas independentes não foram lá muito boas. Ainda prefiro o formato antigo, com mais bandas e menos tempo para cada uma. O que salvou mesmo foi a estrutura do Festival. Tudo muito bem organizado, o som estava melhor, com reservas a um ou outro problema. Havia uma área coberta maior também, a tenda estava melhor organizada, assim como a feirinha. Além disso, o investimento em cenografia e iluminação dos shows foi um espetáculo a parte.

Uma pena que São Pedro ignorou a tentativa da produção de afastá-lo do festival e deus as caras no último dia.

A segunda 'bacana' noite do MADA

A segunda noite do MADA foi boa. Apesar de alguns pesares. Como o problema no som e a ‘surpresa da produção’. Lá pelas 23h, apresentador anunciou para o desesperos de muitos. "E para você que gosta de Rappa, depois do último show da noite, o vocalista da banda Falcão estará 'quebrando o barraco' na tenda eletrônica". Confesso que senti arrepios. E, sinceramente, eu não queria pagar para ver o 'barraco quebrando'.

Assim como não paguei para ver os natalenses "The Volta", a primeira banda a tocar na noite. Banda que, segundo o seu relise, depois de um tempo parados estavam the volta. Trocadilho cruel. É um daqueles grupos de pop óbvio, com um vocal digno dos melhores apresentadores de rádio da capital. O som não é bom e sinceramente não entendo ainda porque eles foram convidados. Não são bons e nem público tem na cidade. Não valia a pena.

Outra que não valeu foi Isaac e a Síntese Modular. Fiquei pensando onde a produção estava com a cabeça quando decidiram escalar a banda. Eles começaram o grupo há três meses, podiam esperar pelo menos o pessoal ficar mais calejado para tocar no festival. Tá certo que os músicos da banda já são tiozões na cena musical potiguar. Mas faltou entrosamento e o som não colaborou. A intenção do pessoal (algo como um pop-rock com efeitos psicodélicos) é até interessante. Mas infelizmente não desceu.

Por falar em som, não entendi bem o que aconteceu. Não sei se entre Isaac e a Síntese Modular e os paulistas simpáticos do Curumim houve um apagão. Fato que o som deu pau. Atrasou tudo. E se os paulistas não estivessem de bom humor, teria sido uma merda. Com o som ainda ruim eles começaram a tocar rifs a lá samba-rock e a conversar com a platéia. Até o troço decidir funcionar. Isso chamou o público que dançou muito e se divertiu com o samba-funk-derivados da banda e a simpatia dos músicos. Foi muito bom, o segundo melhor show das bandas independentes da noite tanto pela empolgação, quanto pelos músicos.

Só não conseguiram superar o que foi o show dos gaúchos do Poliéster. Eles tocaram antes de Isaac. É impressionante como o rock gaúcho consegue revelar uma série de bandas muito boas para o cenário musical brasileiro. A minha única tristeza no show deles foi a quantidade de pessoas que havia. Quase ninguém. Isso frustrou um pouco Porsche, o vocalista, que tentava a todo custo fazer os gatos pingados que assistiam a banda se animar um pouco. Não deu certo. A música e a sonoridade são muito boas, uma espécie de rock-pop divertido. Talvez fosse melhor que se apresentassem num palco menor, como no DoSol, para um público mais rocker.

O outro destaque da noite, entre as independentes, foi o pessoal do Lunares. É impressionante como grupo está caminhando rápido e evoluindo a cada show. Eu lembro da primeira apresentação do grupo, na Cientec, acho que em 2006, quando eles ainda só tocavam cover. A evolução em dois anos foi algo surreal e as músicas próprias estão muito boas. Para mim eles já estão entre as melhores bandas potiguares da nova safra. Se continuarem investindo na sua sonoridade e nas apresentações, com toda certeza, o grupo terá um belo futuro musical.

Os baianos do Subaquatico não convenceram. O seu som 'das ruas baianas' é algo meio batido, sem nenhuma novidade. Não foi pior que Isaac e The Volta, mas também não foi bom. O grupo também enfrentou o mesmo problema que a gauchada. Não tinha quase ninguém. Imagino o quanto deve ser chato para uma banda independente tocar só para meia duzia de jornalistas e alguns curiosos.

Autoramas começou muito bem. Fizeram uma entrada sensacional, neguinho enlouqueceu na platéia. Todo aquele afã. Mas depois ficou morno, até esfriar. Foi uma das melhores aberturas que vi. Mas depois, não sei se é porque eu nunca fui lá um fã de Autoramas, o negocio foi ficou chato e eles fecharam o show com mais gente no outro palco esperando Pato Fu do que curtindo o final do show.

Aliás, antes de falar do Pato Fu, algo merece um destaque. A vocalista, Fernanda Takai. Ela é uma espécie de maestro do público e da banda. Com uma presença de palco da bela frontgirl de dar inveja, o show de Pato Fu é um sério candidato para ser um dos melhores da edição de 10 anos do Mada. Divertido, com um set que variou entre os sucessos batidos da banda e algumas músicas um tanto enterradas. E um destaque: “Capetão", foi um show a parte. Tanto na iluminação (primeira vez que vejo isso em Natal) quanto na 'interpretação' da vocalista. Sensacional.

Quando deu o problema com o som, la atrás, antes do Curumim entrar, previ: Lobão tocaria cinco músicas, teria uma birra e abandonaria o palco, como sempre faz quando o som não esta bom. Mas parece que o apresentador da MTV estava de bom humor na segunda noite do MADA. O show dele foi legal, apesar de eu não conseguir gostar das músicas de Lobão. Ah, destaque para a entrada: fizeram um efeito com a música do lobo mal. Muito legal.

Na tenda, quem mandou muito bem foi o pessoal do Coletivo Lo Que Sea. Com um set divertido de indie rock, fizeram negada rebolar até o chão no espaço. No geral, melhor do que as festas promovidas pelo Coletivo. Outro destaque, que ainda não sei se é positivo ou negativo, foi a famigerada Madame Mim. Não a vi na tenda. Apenas ouvi as histórias, um tanto quanto estranhas. As más línguas andam dizendo que ela mostrou a bunda para a platéia. Enfim, sorte que eu estava no palco e não vi essa cena bizarra.

Não fiquei para ver Falcão quebrar o barraco na tenda. Não quis nem imaginar. Não bastasse o Rappa na quinta-feira. Só falta agora o pessoal se mudar para Natal e fazer show todo final de semana. Não, não, isola, melhor nem pensar. Enfim, o saldo final da segunda noite foi bom. Melhor que a primeira, apesar do pequeno público. Aliás, o público este ano do festival foi fraco. Acho que isso também é reflexo do caráter das headliners, a única que realmente da povão é o Rappa. O que, para quem gosta de música, é muito bom. Mas ruim para o investimento feito pela produção e para as bandas independentes, em que muitas tocam para quase ninguém.

E que venha o sábado.

O que foi a Quinta do MADA

O primeiro dia dos dez anos do maior festival de música de Natal foi regular. A chuva que, ora caía, ora parava e a cerveja Sol a três reais contribuíram para isso. Mas o determinante foi a escolha das bandas. Principalmente da esperada headliner, O Rappa, que fez o mesmo show, em que Falcão falou a mesma coisa, com direito aos mesmos pulos de Falcão e a mesma lição de moral. Já são cinco anos de mesmice. Um saco.

A banda uruguaia Motosierra, apesar da excelente presença de palco do grupo, dos rifs pesados, da negada enlouquecida e da crítica natalense que dizia ser a melhor escolha do MADA, não me convenceu. É gritaria, não consigo gostar de gritaria. Um vocal rasgado que me lembra ritmos como grind core e porcarias do gênero. A banda só não é ruim por conta do instrumental, que é do caralho. Para mim foi que nem Sol quente: não desceu.

Quem me surpreendeu foi o grupo natalense Brand New Hate. Sangue novo na cena local, a banda fez um show empolgado, mostrou personalidade no som e vontade. Eles são bons. Apesar de a minha situação alcóolica estar no auge no momento do show do grupo (três doses de tequila + conhaque + umas latinhas de Sol).

Sweet Funny Adams e Rastafeeling também fizeram bons shows. Incrível como os veteranos da banda de reggae conseguem contagiar com o seu som. E os pernambucanos fazem um som sóbrio e um show acima da média. O resto das bandas (tirando Poetas Elétricos, que não vi), não vale a pena comentar.

Sobre a estrutura do festival, gostei da feirinha e a tenda eletrônica ganhou dois pontos positivos. Um palco. Bem melhor que as edições anteriores em que DJ's ficavam apertados. E bandas. O Barbiekill inaugurou o espaço. Com o jeito, digamos, descolado do performer Daniel Podicrê e dos integrantes da banda, eles mostraram composições novas e boas, que sai um pouco da linha eletro-rock, empolgaram a platéia com o single "Chiclete" e fizeram um show divertido.

De resto, na tenda, foi o mesmo bate estaca de sempre.

A quinta-feira foi isso. Sinceramente, não me empolgou. Espero que hoje as coisas melhorem. Autoramas e Pato Fu prometem um show ótimo. Das independentes, to interessado particularmente por Lunares (RN), Curumim (SP) e Poliéster (RS). O rock gaúcho costuma dar boas contribuições para o cenário nacional.

Agora é esperar.

Amanhã é o MADA

Os blogs sobre música da cidade já estão atentos. A imprensa musical (?) potiguar está de olhos abertos. Amanhã é o primeiro dia do MADA.

Os disruptores já fizeram a sua resenha crítica das bandas do festival. Vale a pena ler.

O BlogdoRosk vai disponibilizar, como faz todos os anos e a despeito da situação alcoólica do pobre rosk, o seu 'o que achei' do Festival.

Parece que será o melhor, apesar dos pesares.

É pagar para ver.

O Sorriso

Os cabelos dela paralisados no ar, o perfeito contraste entre o verde do seu vestido e o tom pastel da sua pele, os olhos fechados, o mundo acabando... Vi a fotografia quando a observava dançar. Era linda dançando. Parecia que o universo todo se esgotava dentro dos seus passos. Me senti vivo vendo aquilo. Desejei ela para o resto da minha vida. Desejei morrer vendo-a sorrir. Desejei estar para sempre ao lado dela. Pena que não estava com a máquina fotográfica para registrar aquele belo momento. Pena.

Eu a conheci quando minha vida tomava o rumo em meio a putas e goles incessantes de álcool. Escrevia meus versos e andava sem rumo em frias e escuras noites. Ela usava um vestido preto, um par de óculos de grau e seus cabelos loiros caiam na altura do ombro. Olhos grandes de quem tem muito o que contar, tinha por volta dos 1,60m e uma bela fisionomia. Não era a mulher mais bonita do mundo. Nem a mais bonita entre as que me relacionei. Quando ela se aproximou para pedir um cigarro, senti que havia algo nela de estranho. O sorriso.

Ao olhar para ela pela primeira vez, tive o cuidado de guardar na minha memória cada vão espaço do seu rosto. Quando eu cheguei no sorriso, me arrepiei. Tremi. Era algo de outro mundo. Aquele minúsculo espaço de tempo em que os lábios se alongavam e os olhos diminuíam gerou em mim uma montanha-russa de sensações, que iam desder os calafrios, até alucinações visuais. Me vi chapado, tonto, desorientado com a força daqueles lábios se abrindo.

Notei que ela percebeu o meu fascínio. Ela me olhou, analisou meu estado deprimente com pena. Enquanto que nesse breve momento de silêncio, uma centena de frases, palavras, versos, músicas, passaram pela minha cabeça. Com a voz ainda trêmula, só consegui perguntar "vo-você vem semp-pre a-aqui?". Ela riu. O meu corpo, que já começava a ter indícios de abstinência, teve o prazer de mais uma boa dose do seu sorriso. Ela respondeu "não, é a primeira vez...". Ainda zonzo, só consegui pronunciar o meu nome. O dela era 'Fernanda'. Mas eu podia chama-la de Fê.

Fê, Fê, Fê. O nome ecoou na minha cabeça. Atriz, ah, eu também fui ator. Livros. Poesia, não, não, para mim quem manda é Leminski. "É matéria prima que se transforma em raiva ou em rima". Risos. Enquanto falávamos e ela sorria, meu corpo era tomado por uma sensação de prazer única. Uma sensação que vinha daquele sutil apertar dos olhos, daquela energia amarela que emanava do seu rosto, daquele cheiro de outono da sua pele pastel. Sentia de repente que meu coração pararia caso ela fosse embora. Queria uma overdose daquilo, vê-la sorrir a cada momento da minha vida, a cada instante, a cada segundo. Virou uma obsessão que tomava conta de cada célula do meu corpo. Eu não podia ficar mais sem aquele sorriso.

Trocamos telefones, emails, mensagens. Ela se foi e senti que roubaram um pedaço de dentro de mim. O tempo passou. Quase não nos falamos. A cada dia que eu passava longe dela, essa sensação de vazio aumentava. Eu adoecia, fraquejava. Precisava urgentemente de mais uma dose do sorriso dela. Pior que eu não sabia como explicar isso. "Alô, estou viciado no seu sorriso, estou morrendo sem ele, por favor me procure". Não, soaria piegas demais. Não tive coragem. Passei a beber mais, a me drogar mais, para ver se os efeitos fariam bem ao meu corpo. Nada. Eu emagrecia, minha pele amarelava, meus olhos, afundavam. Era um defunto vivo. Não conseguia mais viver.

Foram três semanas de martírio, até que a encontrei dançando. Era uma casa de shows escura, com luzes que piscavam irritantemente e que tocava um ritmo parecido com funk. Ela estava de vestido verde. Como alguém podia ficar tão bonita de vestido... O mundo estava sob os seus pés. Tive vergonha de me aproximar naquele estado. Sentia que a sua presença revigorava meus sentidos de uma forma estranha. Ela dançava como se nada existisse. Dançava, dançava e dançava. E só eu parecia notar aquela beleza, aquela cena que compunha uma imagem perfeita. Me esforçei para gravá-la em todos os seus detalhes. Eu estava fascinado.

Ela se aproximou de mim suada. Dava para sentir o seu cheiro evaporar de cada um dos poros do seu corpo. Sua presença iluminava tudo o que havia próximo de mim. Deu-me dois beijos no rosto. Falou do balé e do teatro. Lançou outro daqueles seus sorrisos. Não agüentei. Não resisti. Chamei-a num canto e falei. Falei que não conseguia mais viver sem o seu sorriso. Falei que meu corpo padeceria sem a sua presença. Falei que sem o seu olhar, morreria. Ela não acreditou. Se ofendeu, até. Me chamou de cafajeste. Falou que não caia naquela conversa para boi dormir. Falou que conhecia muito bem o meu tipo. Mandou que eu não mais a procurasse. Ela não me entendeu. Foi embora.

Não mais a vi. No desespero, procurei-a. Liguei várias vezes para ela. Deixei mensagens. Falei que ela estava me matando. Ela não respondia. Aliás, respondeu apenas uma vez, para pedir que eu não mais a incomodasse. Emagreci. Perdi 20 kg. 40 kg. Fui internado. Estou internado. Ninguém sabe o que tenho. Tentei explicar. É o sorriso dela doutor, é o sorriso dela. Ninguém me entendeu.

*revisado
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