O Natal de Luís

Dez horas da noite. Véspera de Natal. Luís esperava ansiosamente a virada, o momento mágico, a hora. Vestia uma camiseta azul, um short cinza e um tênis branco e meias que cobriam parte da sua canela. Tinha olhos castanhos brilhantes, cabelos encaracolados e um sorriso magistral. Seu porte físico era comum a de uma criança de 7 anos. Pequeno e corredor. Corria pela casa toda. Corria porque o tempo era curto demais para as coisas boas. Corria porque gostava de se sentir ofegante. Corria até quase cair de tanto correr.

O natal é um momento particularmente especial para Luís. Não só pelos presentes, mas pelo cheiro do natal. Cheiro de pessoas felizes, sorrindo umas para as outras, presenteando os parentes queridos, cheiro da sua família, unida em torno de uma árvore, conversando alegremente, o cheiro de primos brincando, o cheiro do vento que soprava com mais força nessa época, o cheiro dos filmes de Natal que passavam e passavam na televisão. E os presentes, o cheiro dos presentes. A cereja no sorvete que era o Natal para o menino. O momento mais esperado. Mal sabiam os seus pais o quanto aquilo tudo representava para Luís. O quanto aquilo era mágico.

Dez horas da noite e o Natal ainda estava longe para acontecer. Luís chama Pedro e João para descerem, brincarem de baixo do bloco em que moravam. A mãe não deixa. Luís insiste, insiste, insiste. A mãe deixa, mas com cuidado e só até as onze horas. Descem, mas antes de descer Luís vai até o quarto e pega um carrinho de controle remoto. Era o seu carrinho, o seu presente do Natal anterior. Era rápido, corria quase que nem Luís. E Luís o adorava. Desceu com os meninos pela escada, ansioso para brincar com o seu velho carrinho.

O piso no saguão do bloco onde ficava o apartamento de Luís era liso. De um liso, tão liso que o tênis dos meninos derrapava quando andavam por ele. Mas Luís não tinha medo. Luís corria no piso e correu até o portão que dava na rua. Quase caiu, mas chegou. Os meninos que seguiam Luís, iam devagar. Sabiam do risco de correr e se espatifar naquele piso e demoraram um pouco para sair da escada e chegar até o portão de saída que dava para o lado de fora do saguão, onde Luís os esperava ansiosamente.

O ar estava frio e a lua saía amarela por detrás das nuvens. O cheiro era de Natal, constatou Luís. As luzes natalinas brilhavam com força, quando os meninos decidiram apostar corrida com o carrinho. Era simples, um dos meninos controlava o carro, o outro corria e o terceiro marcava o tempo. João foi o primeiro. Correu, correu, correu, correu. Luís estava no tempo. Xii, foi ruim heim. O carrinho ganhou com folga do menino João.

Luís sabia que João não era bom de corrida. O negócio dele era videogame. No jogo, ninguém o vencia. Mas Pedro era diferente. Pedro era alto, cabelo chanel, olhos azuis, o preferido das meninas. E Pedro corria. E muito. Luís gostava de Pedro. Era o seu melhor amigo. Mas hoje queria vencer o menino esguio de olhos azuis que se preparava para correr enquanto ele controlava o carro e João media o tempo. Deu o sinal, PUM! Correu, correu, correu, correu. Passou. Ganhou. Um pulo de alegria. O tempo? Inacreditável. Trinta segundos. O carrinho fizera trinta e cinco e João, quarenta e oito. Luís tinha que vencer. Queria vencer.

Os olhos castanhos de Luís brilhavam enquanto ele se preparava para o momento. Ele sentia que iria fazer uma bela corrida, afinal, ele corria muito. Ele sentia que alguma coisa mágica iria fazê-lo correr como nunca. Pedro estava no tempo e João no carrinho. Minutos de tensão. Luís passou a mão no cabelo. Sentiu o vento e o cheiro do Natal passar por ele. Olhou para as luzes brilhantes, ouviu a música natalina e PUM! Correu. Correu. Correu. Correu. Correu. Correu. Correu. Correu. Correu. Passou do carrinho! Correu. Correu. Correu. Correu. Decolou. Luís Decolou.

Luís correu tanto, mas tanto que tinha decolado. Sem volta. Quando ele olhou estava no ar, perto das nuvens, correndo pelo céu azul escuro do natal. Rápido sob o luar amarelo. Ele estava feliz. Muito Feliz. Seu sorriso magistral iluminava a noite. Luís virou lenda. A lenda do menino corredor do Natal, a lenda do belo sorriso que ilumina o natal dos garotos corredores. A lenda dos olhos castanhos brilhantes que aparece todo o ano para presentear os bons meninos com carrinhos rápidos de controle remoto.

Cositas

Nas próximas semanas as atualizações do blog serão menos constantes. Meu acesso no computador está reduzido. Estou recebendo familiares que não via a anos aqui em casa e por conta disso estou quase sem tempo para a internet.

Mas é temporário e tentarei fazer as listas dos melhores de 2007 para a semana que vem.

Vou tentar mandar também uma crônica (ou conto) natalino. Esse período me deixa inspirado.

Antes de finalizar o post tenho duas notícias péssimas.

A Velvet Café e Música e a Limbo Livros Selecionados encerrarão as suas atividades este mês.

Natal deveria estar de luto. Dois dos melhores lugares da cidade morrerão, assim, amiúde.

Tristeza. E agora, o que será de nós?

O War da Rede

Quem nunca jogou War?

É uma pergunta difícil de responder. Mas enfim, para os que nunca tiveram o prazer de se divertir com o War, segue uma breve descrição:

O jogo consiste num tabuleiro com o mapa e a marcação de vários países. Os jogadores recebem, inicialmente, cartas divididas igualmente que equivalem a cada país do mapa. Cada um então põe um "exército", uma bolinha da cor escolhida pelo jogador, em cada país e recebe uma carta com o seu objetivo. Os objetivos variam de conquista territorial, conquista de continente a eliminação de exércitos de outra cor. De acordo com as conquistas, que se dão por meio do jogo de dados e de regras de ataque e defesa, o jogador recebe mais exércitos para distribuir nos territórios e tentar cumprir seu objetivo.

Obviamente ganha quem conseguir terminar o seu objetivo. Há ainda uma variação na regra que cria o objetivo de conquistar o mundo, o que torna o jogo mais excitante do que ja é.

War é um jogo que acirra ânimos, já vi amizades quase morrerem por causa da perigosa mistura de álcool e o jogo de tabuleiro. Mas é muito divertido, excelente para tardes de ócio com os amigos.

No wikipedia tem um artigo interessante e com algumas curiosidades sobre o jogo, para quem desconhece.

E no site Warnet você pode simular uma partida do jogo com os amigos. Basta se cadastrar, criar uma sala e chamar o pessoal para se divertir. No site é possível jogar com a regra "original" do jogo e com as variações existentes no momento da troca e nos objetivos. É bem legal para quem fica zanzando pela rede sem fazer nada. Além disso, a página realiza alguns campeonatos, pra quem quer se "profissionalizar" no jogo. Um excelente lugar para exercitarmos nosso espírito de megalomania.

Ps. post escrito enquanto eu jogava e, pela primeira vez, ganhava uma partida no site!

Carlos Eduardo no Xeque Mate

Ontem foi o último dia de gravação do programa Xeque Mate da TVU.

Gravamos dois programas, um com o coordenador do curso de ecologia e fundador do curso, professor Aristotelino. O programa foi muito bom, tratamos o contexto ambiental aqui da cidade e no cenário internacional. Uma hora de programa que passam voando. O programa deve ir ao ar só em janeiro.

O segundo entrevistado foi o prefeito da cidade Carlos Eduardo. O prefeito comentou a decoração natalina, o fim da CPMF, a urbanização de Natal e falou dos projetos para 2008. Desviou o foco quando o assunto foi sucessão e sentiu-se desconfortável quando foi tratado a urbanização da favela do Passo da Pátria. A melhor entrevista com político que fizemos no Xeque Mate. Uma dica: assistam até o final, a cereja do sorvete. A entrevista vai ao ar na próxima sexta-feira, dia 21, às 19 horas na TV universitária, está imperdível.

Presidência do Senado

Garibaldi Alves Filho, ex governador do Rio Grande do Norte, sobrinho do oligarca potiguar Aluísio Alves, primo do deputado federal Henrique Eduardo Alves, parente próximo dos prefeitos de Parnamirim, Agnelo Alves e de Natal, Carlos Eduardo Alves, ex-opositor do PT e da CPMF e que trocou o seu voto quanto a absolvição de Renan Calheiros, votando a favor do crápula, acaba de ser eleito presidente do Senado.

Estamos bem (?) na fita. O provincianismo potiguar vai ferver. Não estranharei se soltarem fogos comemorando a vitória de Garibaldi para presidente do Senado. Não será estranho também ver seus opositores locais que viviam de criticá-lo, elogiando a garra e competência do ilustre político potiguar.

Muitos dirão, é uma vitória do RN. Eu digo, é uma vitória de Garibaldi. Ele sendo presidente do senado, ou não, não mudará em nada as condições em que vivemos. O senador potiguar só terá status e mídia.

E, desculpem os que acreditam, mas status e mídia não representa efetivamente nada, nem uma migalhinha de pão para o nosso pobre RN.

São Paulo, O Lugar Comum

Na oficina de sábado (que, para o nosso prazer, foi mais um bate papo descontraído) com o jornalista Humberto Werneck, dentro da programação do Colóquio Rumos Jornalismo Cultural, promovido pelo Itaú, na capital paulista, o escritor e jornalista falou da importância e do cuidado extremo que nós devemos ter com os nossos textos. Em meio a várias boas dicas, Humberto falou uma que ouço desde quando me meti a escrever. Evitar o lugar comum.

Definir a minha estadia em São Paulo é, justamente, ignorar a dica dada por Humberto e por todos os professores de texto que tive. A melhor expressão para descrever a cidade é um lugar comum batido, mas que expressa de forma bem próxima o que eu vi por lá. São Paulo não para. É uma realidade que constatei em plena madrugada na capital paulista com estações de metrô lotadas, apesar do relógio marcar 4 horas da manhã. Segundo uma amiga do Rumos que morou por lá, a capital paulista é um excelente lugar para estudar o caos urbano dos grandes centros. Afinal, São Paulo é um caos urbano de pessoas insones. Aliás, pessoas é o que mais existe em São Paulo.

Nunca vi tanta gente junta na minha vida. Em todos os lugares que fui, com exceção da sala de cinema da Fundação Cásper Líbero em que vi o filme alemão A Vida dos Outros, todos os locais que visitei estavam abarrotados de gente. Na avenida paulista olhar para frente é deparar-se com um mar sem fim de pessoas e carros misturados, andando de um lado para o outro e, nas margens desse mar, prédios imensos e muito bonitos A maresia desse oceano paulista é uma fumaça transparente, leve, soltada pelas toneladas de gases tóxicos que são expelidos diariamente por ali. Uma visão surreal para quem não está acostumado. Andar na paulista, ouvindo o barulho de buzinas infernais (ô povo que gosta de buzinar heim) e tendo essa visão me fez entender porque tanta gente tem problemas de stress no Brasil.

Mas não é só de gente, carros e poluição que é feita a cidade de São Paulo. É de pizzarias também. Próximo do hotel em que eu ficava, num perímetro curto de 3 quadras, contei 4 pizzarias. Ou seja, mais de uma pizzaria por quadra. O interessante e bom disso é que a pizza lá é barata. Paguei 20 reais para comer uma pizza grande (lá eles não tem gigante) maravilhosa meia portuguesa, meia mussarela, com mais o refrigerante de 2 litros. Coisa impossível de acontecer em terras potiguares. Fora isso, havia uma variedade de sabores que me deixou boquiaberto. A grande maioria das pizzarias, pelo que percebi, usam forno a lenha e as pizzas são todas muito boas. Bem diferente daqui que paga-se absurdos por elas.

Outra peculiaridade é a boa educação do povo paulista. Fui bem atendido em todos os lugares em que estive. E, ao contrário do que eu pensava, o paulista não é frio. É um povo que gosta muito de conversar e de ser prestativo. Interessante isso, porque o perfil do natalense é diferente. É um povo mais frio, muitas vezes mal educado* que se interessa muito pela vida alheia, apesar de ser muito honesto e hospitaleiro. Em São Paulo você pode estar com uma melancia pendurada no pescoço que você não é olhado. Em Natal, basta uma roupa diferente para você ser taxado de isso ou aquilo. Por outro lado, ao voltar do hotel para o aeroporto, senti toda o conservadorismo paulistano quando, conversando sobre pedofilia com o taxista, ele afirmou indignado: "o que mais me deixa irritado com esses pedófilos é que eles querem comer os meninos. Se fosse as menininhas, vai lá, eu até entendia, tem umas que parecem mulher, mas não sei porque o interesse em (sic) comer o rabo de menino". Como se comer as menininhas diminuísse o absurdo e o terror que é a pedofilia.

São Paulo me impressionou também pela sua efervescência cultural. Cinema, teatro, dança, música, literatura, artes plásticas, arte urbana, arte mobile... Tudo o que se desejar e um pouco mais você encontra na capital paulista. Pena que o meu tempo livre por lá foi pequeno para aproveitar pelo menos parte do que a programação cultural que cidade podia me oferecer. Perdi a exposição de Yoko Ono que ocorria no Centro Cultural Banco do Brasil e a mostra do minuto que acontecia, salvo engano, no espaço Unibanco. Mas, ao menos, consegui ver um excelente filme, visitar uma feira de arte mobile muito interessante e curtir She Wants Revenge e Phoenix no Memorial da América Latina.

Nesse momento do texto me sinto, novamente, impelido a descumprir a regra do lugar comum para falar de São Paulo. A terra da garoa. Não há definição que se aproxime mais do que é o clima de lá como essa. Várias vezes, durante a tarde, ao caminhar pela paulista, fui surpreendido pela garoa paulistana. Parece que o clima de lá tem algum tipo de crise existencial, ou é mulher em TPM. Não sabe o que quer. Quando você menos espera, chuva. E chuva forte. O mesmo quanto a temperatura, o clima de lá não sabe se é quente ou frio. Pior que essa peculiaridade me pregou peças. Quando saí preparado para o frio, no sábado, pensando que sabia como funcionava a lógica climática da cidade, calor. Muito calor e pobre de mim que não tive tempo de voltar para o hotel e me trocar.

No geral, o saldo foi positivo. Gostei da cidade, apesar da loucura que deve ser morar e trabalhar lá. É óbvio que a minha simpática cidade provinciana em termos de qualidade de vida é bem melhor que a capital paulista. Mas a falta de oportunidades por aqui e, sobretudo, a falta de uma programação cultural mais diversificada, de investimentos nessa área (precisamos urgentemente de mais teatros) e a desvalorização do profissional do jornalismo, me fazem achar que talvez São Paulo seria um lugar interessante para viver. Não sei é algo a ser pensado. O que sei é que quebrei regras com esse texto, não foi Werneck? Desculpa, mas afinal, regras nasceram para serem quebradas.

Itaú Cultural

Estou em São Paulo acompanhando a programação do Rumos Jornalismo Cultural organizado pelo Itaú Cultural. Hoje é o último dia com uma uma aula expositiva com o jornalista e escritor Humberto Werneck.

Durante o evento, que começou no dia 6 de dezembro, passaram pela sala vermelha do Itaú nomes como Cremilda Medina, Cuca Fromer, Tutty Vasques entre outros grandes nomes do jornalismo cultural brasileiro e um nome de peso internacional: o editor de cultura do El País da Espanha, Pablo Guimón.

Ou seja, o nível dos debates foi lá em cima.

E o nível do público não deixou a desejar. Ontem, por exemplo, dentre estudantes de jornalismo, jornalistas e blogueiros que assistiam atentos a mesa sobre o texto no jornalismo cultural, estava a escritora paulistana Lygia Fagundes Telles. À propósito, um amor de pessoa.

Quando voltar, feliz pela riqueza que está sendo a minha passagem por São Paulo, escreverei sobre o Colóquio e a minha estadia na capital paulista.

Ps. Ainda to devendo a agenda de dezembro

Nota do dia

Hoje é um dia histórico. Corinthians rebaixou para a série B do Campeonato Brasileiro. E a TV digital estréia em São Paulo, acompanhando o sistema brasileiro de TV digital. A TV Brasil também começou hoje no sudeste brasileiro. Em alguns meses, as novidades estarão chegando em terras potiguares. E o glorioso (?) timão enfrentando o América e o ABC, a TV digital e a TV Brasil, ali em meados de julho.

ps. Procurando eventos para fazer a agenda de dezembro

Lugares legais para se visitar em Natal

A província de Natal é uma cidade com um imenso apelo turístico. Estima-se que recebe anualmente mais de um milhão de turistas. Muito deles, estrangeiros. O povo natalense é muito receptivo. Receptivo até demais, eu diria. A quantidade de turistas estrangeiros está ficando tão grande que, em alguns lugares, você olha para os lados e pensa não estar mais no Brasil. Se não fosse pelo calor constante, a brisa ocêanica e a gritante carência de infra-estrutura e falta de obras básicas, problemas típicos do chamado terceiro mundo, acreditaria estar em alguma cidadezinha européia.

Estava pensando com o tico e teco estes dias. Os principais pontos turísticos estão recheados das nossas maravilhosas belezas naturais, mas completamente sem nenhuma rota dedicada a cultura e a história da cidade. Nisso, pensei em enumerar locais de relevância histórica /cultural da cidade, esquecidas pelas rotas turísticas tradicionais.

O primeiro lugar que eu recomendaria é o Forte dos Reis Magos. Por motivos óbvios. A relevância histórica do local é absurda. O forte era usado pelos portugueses para evitar ataques dos corsários franceses que desembocavam na nossa terra em busca do pau brasil. E, em 1638, quando Natal deixou de ser natal para ser Nova Amsterdã (apenas dois locais do mundo tiveram esse nome, Natal e Nova York) o forte dos Reis Magos foi de domínio holandês e o seu nome fora mudado para Castelo Ceulen durante cerca de 20 anos, até a retomada portuguesas por essas terras.

O segundo local que não poderia faltar a um forasteiro que visita a cidade é a Ribeira/Cidade Alta. Centros históricos da cidade. Nestes locais estão localizado a maioria dos prédios antigos, construções dos séculos anteriores, muitas deterioradas pela falta de cuidado do poder público. A Ribeira e a Cidade Alta foram por muito tempo os principal locais da cidade. Neles temos o Teatro Alberto Maranhão, a rua dos sebos, a Praça José de Albuquerque (onde começou a cidade) e o Beco da Lama.

O beco da lama foi e ainda é o recanto da boemia dos intelectuais que nasceram, vivera, vieram, ou visitaram a cidade (não me recordo agora de nomes para citar). O beco consiste numa rua estreita cheia de bares com programação cultural diversa em algumas ocasiões do ano. Infelizmente é um local esquecido pelo poder público e que sobrevive por conta dos moradores e de uma associação chamada SAMBA (sociedade dos amigos do beco da lama). Muito, mas muito melhor que a badalada rua do salsa. E o preço, bem mais em conta.

E dentro do beco da lama, recomendo o bar da meladinha e o bar do chorinho. O primeiro leva esse nome por causa da sua bebida, especiaria da casa, a meladinha. Cana, mel e limão. Essa simples mistura, servida pelas meladetes, e tomadas de um gole só, resultam num efeito alcoolico quase transcendental. E não se engane, você pode ver diversas pessoas tentando realizar tal mistura, mas a original esta lá, no beco da lama. O segundo é um boteco, localizado a alguns metros do bar da meladinha. É um lugar simpático, com apresentações regulares de um grupo de chorinho dos moradores da região. Eles tocam numa mesa de bar, de frente a uma parede que tem um desenho muito legal do próprio grupo tocando. O clima do bar é excepcional com os clássicos da música brasileira bem tocados pelo grupo. Misturados com cerveja então, a alegria tá feita. É um excelente lugar para se visitar na noite.

Um outro ponto mais do que interessante é a Casa da Ribeira. O local é um Centro Cultural construído por iniciativa do grupo de teatro Clows de Sheakspere. Aconchegante, é um teatro com um café na parte de cima e um espaço para mostra artísticas, a Casa da Ribeira sempre tem uma programação interessante e de qualidade nos finais de semana. Um outro ponto interessante é que a Casa Cultural funciona num prédio do século 19 que, se não fosse a iniciativa do grupo, estaria em ruínas, assim como a maioria das construções antigas da Ribeira.

Outro lugar bom para se conhecer, caso o forasteiro goste de rock, é a Rua Chile, também na Ribeira. Na rua chile está localizada quase todos os bares dedicados a música rock da cidade. Nela temos o Dosol Rock Bar, o galpão 29 e agora o Armazem Hall que dá indícios de seguir o mesmo rumo das outras duas. Quando há um show "grande", geralmente fecha-se a Rua Chile para o evento.

Ainda na Ribeira, para quem gosta de cinema e música de qualidade, existe o Nalva Melo Café Salão. Local novo, recém inaugurado, bem próximo a Rua Chile e a Casa da Ribeira, na Tavares Lira, rua paralela a Rua Chile e a Frei Miguelinho(Casa da Ribeira). O lugar é um salão de beleza de dia e um café bastante aconchegante a noite. Por lá rolam apresentações culturais de bons artistas potiguares e nas sextas-feiras uma sessão ordinária do Cineclube Natal. Vale muito a pena conhecer.

Saindo da Ribeira, um lugar interessantíssimo é a Limbo Livros Selecionados. A Limbo localiza-se em Tirol, na Av. Afonso Pena, 666. A livraria é um espaço bem pequeno e que, segundo os seus donos, por causa do tamanho só entra lá o que for bom. É uma livraria que se orgulha de não vender livros de auto ajuda e best sellers sem qualidade. É o principal ponto de efervescência literária da cidade.

Um outro local legal é a Velvet Café e Disco que, recentemente, escrevi por aqui. Por isso, vou deixar o link da postagem.

Bem, esses são os principais locais que eu recomendaria a um amigo a conhecer, durante a sua estadia em Natal. É um trajeto pelo que tem de melhor na cidade, mas que infelizmente é esquecido.

Por Que Assistir O Passado?



Como postado abaixo, o longa argentino-brasileiro, O Passado, irá estrear no cinemas da terra do sol na próxima sexta-feira.

Vou enumerar alguns motivos que me fizeram aguardar ansiosamente o lançamento desse filme:

o 1º Motivo:

É dirigido por um dos melhores diretores brasileiros da atualidade. Hector Babenco. Apesar de ter nascido na argentina, é naturalizado brasileiro e foi o diretor de Carandiru. Além disso, na década de 80, em pleno descenso do cinema brasileiro, conseguiu uma indicação de melhor diretor com o filme O Beijo da Mulher Aranha.

2º Motivo:
Tem no elenco o melhor ator latino americano da atualidade. O mexicano Gael Garcia Bernal. Além disso, é o último trabalho cinematográfico de Paulo Autran, ator brasileiro que morreu recentemente.

3º Motivo:
Foi escolhido o melhor filme de uma das principais mostra competitiva de cinema do Brasil. A mostra de cinema de São Paulo.

4º Motivo:
O roteiro é adaptado do argentino Alan Pauls e conta a história de amor de uma separação. Rimini, personagem principal, separa-se de Sofia, depois de 12 anos de casamento. Sofia então passa a perseguir o seu ex-marido, que procura o amor em outras mulheres. Um tanto melancólico. O cenário? Buenos Aires e São Paulo.

5º Motivo:
Não há nenhum filme bom passando no cinema. A grande maioria (não vi todos), são os velhos enlatados norte-americanos de sempre.

6º Motivo:
Cinema brasileiro de qualidade deveria fazer todo mundo levantar a bunda da poltrona e deixar o controle da TV de lado para ir ver o trabalho.

7º Motivo:
Raramente um filme não americano bom estréia por aqui. Geralmente os não americanos que estreiam são os que fazem algum barulho no mercado cinematográfico. Mas nem todos não americanos que fazem barulho são bons. E nem todo filme brasileiro que estreia por aqui é bom. Não Por Acaso, por exemplo, do carioca Philippe Barcinski, mesmo com a distribuição da Globo Filmes e da Fox Filmes não chegou nem perto de estrear por essas terras. Resultado? Tive que baixar para assistir.

Enfim, se estes sete motivos não te fizerem ir ver o filme, o problema é seu que provavelmente perderá um filme muito bom. Amanhã estarei no cinema para conferir. Talvez eu escreva algo sobre o filme depois que vê-lo. Talvez não. Nunca se sabe né. Essas coisas dependem da inspiração e também do filme. Chega de lero-lero. Segue abaixo o trailler:

Com 5 semanas de atraso, O Passado estréia em Natal

Acabei de conferir. Depois de ter que amargar cinco semanas de incertezas quanto a estréia do longa do nosso hermano-brasileiro Hector Babenco, os cinemas de Natal vão exibir o filme a partir de sexta-feira. Mais tarde postarei alguma coisa sobre o filme.

Saibam, de antemão, que foi ele que me rendeu este post no início do mês.

Falta de postagens

Trabalhos da faculdade, computador quebrado e um pouco(?) de preguiça. Esses são os motivos da falta de atualização deste distinto blog.

A partir de segunda-feira, provavelmente, voltarei a postar em ritmo normal.

A Intuição

- Duas rosas brancas.

A mulher, ainda estranhando um pouco o pedido daquele rapaz que aparentava ter algo em torno de 20 anos, esboçou algo parecido com um sorriso e pediu que esperasse um momento.

Passaram um, dois, três momentos, e ele ainda aguardava o seu pedido. Ansioso para receber as rosas e depois pensar o que fazer com elas. Seu joelho tremia levemente, num sinal de desconforto e pressa. O pedido das rosas brancas veio como um impulso. Ele simplesmente saiu do seu pequeno apartamento com isso na cabeça. Duas rosas brancas. Duas rosas brancas. Duas rosas brancas, para quê? Não sabia. Tinha certeza que teriam que ser 2, rosas e, ainda por cima, brancas.

- Aqui estão, custam 8 reais.

Oito reais!? Por duas rosinhas brancas? Que absurdo, pensou, mas o impulso era mais forte de que o sentimento suvino que lhe abateu ao saber do preço das rosas. Tirou da carteira uma nota de 10 reais, esboçou algo que queria parecer com um sorriso simpático. Esperou o troco, quando a moça falou:

- Desculpe a demora, tive alguns problemas para encontrar as rosas.

Olhou de forma simpática para a moça. Recebeu o troco. Saiu da loja, pensando qual seria o futuro daquelas rosas brancas. Rosas brancas. Para quê danado fui comprar rosas brancas hoje? Sentiu então uma vontade forte de tomar vinho. Precisava tomar uma garrafa de vinho tinto. De preferência barato. A boca salivava. Vinho tinto. Esqueceu as rosas por um momento, seguiu a um supermercado próximo, comprou uma garrafa de vinho tinto. Custou uns seis reais. Quatorze reais o custo dos seus impulsos de hoje até agora.

Seguiu para a sua casa, ouvindo Bob Dylan e pensando porquê isso. Vinho tinto, rosas brancas. Pensou. Talvez a sua intuição quisesse sexo. É! Não há nada mais estimulante sexualmente para ele do que vinho. E as rosas? Ah, as rosas são para conseguir a mulher. Sonhou. Busto farto, pernas de tirar o fôlego, batom vermelho e cara de safada. Cara de safada não. Tem que ter cara de inocente. É mais gostoso. Chegou no seu apartamento. Abriu a porta. Colocou o vinho na geladeira. As rosas em cima da mesa. E esperou a sua intuição indicar a próxima coisa para conseguir efetuar a sua relação sexual. Pensou. Sem camisinha. Muito tempo que não faço sexo. Cinco meses, talvez. E sem camisinha não rola. Não quero ser pai assim, tão cedo. É, é isso, a Intuição quer que eu compre camisinha. Vou comprar camisinha.

Trancou a porta do apartamento. Desceu. Foi a farmácia mais próxima. Comprou três pacotes de camisinha. Nisso daí foi cerca de oito reais. Meu Deus, estou gastando muito dinheiro. Saiu da farmácia quando, de repente, pá, trombou com alguém. Não teve nem tempo de ver quem era. Trombou, abaixou-se, pegou as suas camisinhas. Envergonhado, olhou para ela. Busto farto. Tá, as pernas não eram lá essas coisas, mas dava pro gasto. Não tinha batom. Será? Pensou ele. Arriscou um oi. Mas não conseguiu nada além do que um pedido de desculpas meio assim, como quem não quer dar. Dar nem as desculpas, nem, digamos, nada mais. É, as pernas não eram lá essas coisas. Seguiu para o apartamento.

Elevador. De repente, pernas. Não, não eram pernas. Eram esculturas. Era ela? Tá, o busto não era grande, e o nariz era meio tronxo. E o queixo? O que era aquilo embaixo do queixo? Uma verruga? Ah vai, coloca a bandeira do Brasil na cabeça e come por amor a pátria, pensou. Arriscou um, qual andar? Ela, o seu gostosão! Assustou-se. Não era bem uma voz fina. Aliás, não era uma voz fina. Era grossa. Temeu. O elevador chegou no andar. Saiu. Ela, ou ele, olhava-o esperando para ser convidado, ou convidada, para entrar. Ele nem olhou. Entrou depressa no apartamento. Trancou a porta. Respirou aliviado.

Bem, e agora? Já tinha gastado vinte e dois reais. E não sabia o que fazer com aquelas coisas. Rosas brancas. Vinho. Camisinha. Só faltava o mais importante. Pensou. A agenda. Ah, a agenda telefônica. Ela irá me salvar. Fechou os olhos, abriu a agenda. De olhos ainda fechados, colocou o dedo em algum lugar da página. Abriu os olhos. Nada, o dedo apontava para um espaço vazio. Essa intuição tá brincando comigo. Repetiu três vezes, até chegar em Janaína. É, é gordinha, tem cara de safada. Ah vai, tem peito. E as pernas não são esculturais, mas dão pro gasto. Sempre deu bola pra mim, aquela dandinha. É hoje. Ligou. Ela atendeu. Tá namorando. Com uma mulher! Djabo e eu aqui, na secura.

Triste e desconsolado com a Intuição, abriu o vinho. Tomou um gole. Colocou Chuck Berry no som. Uma rosa branca na boca. Lembrou-se dela. A boneca. Essa sim era perfeita. Busto farto, pernas grossas, batom vermelho. Ah, e aquele rostinho inocente. Um tesão. Encheu a boneca. E ao som da guitarra de Berry, no torpor do vinho, com uma rosa branca na boca e outra entre os grandes seios plastificados dela e a camisinha para não sujar o apartamento, teve a melhor trepada da sua vida. Até então.

A Menina que Pedia Livros

Estava no carro, dirigindo, um pouco atrasado para o curso de inglês, quando, ao parar no sinal, fui abordado por uma garota que queria limpar os vidros do meu carro. Acostumado com esse tipo de abordagem nos sinais daqui, falei que não precisava, esboçando um sorriso amarelo. Ela, insistente, pediu que lhe desse ao menos 10 centavos. É óbvio que eu tinha 10 centavos na carteira, mas tirar o cinto de segurança, colocar o carro em ponto morto, abrir a carteira, e tirar 10 centavos, levaria tempo demais e demandaria um esforço que a minha eterna preguiça de ser, inviabilizava. Era mais fácil falar que não tinha, assim o fiz. A menina então, com um jeito meio timido, pediu para que eu lhe desse pelo menos 'um livro daqueles pra mim ler em casa". Não soube como reagir. Olhei para o lado, no banco do passageiro estavam os meus livros de inglês. Falei isso pra ela, então, triste se afastou. Nem teve tempo de ouvir eu falar que se fosse de literatura, daria com o maior prazer.

Isso me fez pensar. Nunca esperararia tal atitude da menina de rua de olhos tristes que queria limpar o parabrisa do meu carro. O lado mais cético do meu ser chegou a pensar que ela, talvez, quisesse o livro para vender. Mas, mesmo assim, o intervalo entre o ganhar o livro e o vender o livro seria o suficiente para, despertar nela, e talvez em seus companheiros, uma curiosidade mínima de abri-lo e tentar ler, ao menos, o primeiro parágrafo da história. E quem sabe o primeiro parágrafo da história não a levasse ao segundo? E depois ao terceiro? E depois ao livro todo? Livros bons são assim, causam dependência psicológica. Não se consegue ler uma página sem querer ler a segunda, nem a terceira, nem a quarta. Pensei também quanto ao dever do poder público de disponibilizar obras, pelo menos as essenciais, para a sociedade. Sobretudo, às pessoas pobres. A literatura alimenta a alma. Mas, enfim, essa questão do poder público nem é tão legal de discutir. Desanima. Amanhã vou procurar uma obra infanto-juvenil boa que estiver encostada na minha estante de livros e darei para algum desses meninos (ou meninas) que me abordarem no trânsito. Pelo menos, ficarei com a consciência menos pesada de não ter nenhum livro bom no momento para presentiar a garota.

Apesar do desânimo do poder público quanto ao incentivo a leitura de pessoas carentes. Pelo menos algo de bom ele está realizando aqui em Natal. E esse algo é o II Encontro Natalense de Escritores que vai acontecer do dia 22 ao 24 de Novembro, na rua Chile, Ribeira. Com painéis muito bons e com muita gente boa discutindo. Fazer esse tipo de evento é bom para a literatura natalense. Incentiva novos escritores, forma novos leitores, movimenta culturalmente a nossa cidade, tão desmovimentada. Gente como Veríssimo, Zuenir Ventura, Carlos Heitor Cony, dentre tantos outros, com toda certeza trará frutos bons. A idéia é muito boa. Mas como nem tudo são flores, prevejo, infelizmente, painéis esvaziados. O incentivo por parte de campanhas e de divulgação é muito pequeno ainda. Sobretudo nas regiões carentes. Existe pessoa pobre que gosta de literatura e talvez não saiba disso. Incentivar a ida desse público para um evento como esse é mais que o essencial. E não só a ida para o encontro, como a leitura de boas obras. Aquele papo de que brasileiro não gosta de ler é furada. Não incentivam a leitura do brasileiro. E o que acontece: a menina que talvez tivesse lido um livro no colégio, que gostava de escutar histórias e que era pobre demais para consumir literatura e que precisava limpar parabrisas no sinal para garantir um mínimo de dignidade da vida, precisa pedir "um livro daqueles pra mim ler em casa", enquanto muita gente enche a boca pra dizer que brasileiro não gosta de ler. Revoltante.

En Lo Que Sea


O Lo Que Sea, do espanhol o que seja ou, seja lá o que for? Enfim, depois de dezembro, Lo Que Sea, deixará de ser apenas uma expressão da língua dos nossos hermanos e passará a ser um (sic) coletivo de cinema, música e literatura com a organização de Michel Heberton, Rudá Almeirda, Tiago Lopes e Juliana Fernandes. Os quatro pretendem "despoluir" a música da cidade e criar público para um tipo de som mais experimental, com vistas a um festival, talvez daqui a 2 anos, como revelou um dos integrantes, Michel Heberton. E, para começar, nada melhor que uma festa, em um dos melhores salões de beleza glamour da cidade que transforma-se, a noite, em um simpático café, O Nalva Melo Café Salão, localizado na Duque de Caxias, 110, no centro histórico de Natal.

O evento vai acontecer no dia 15 de dezembro, a partir das 23h com discotecagens de música boa, WC-Sessions e exibições de vinhetas do coletivo. Antes de estar tudo certo para o evento, consegui uma pequena entrevista via borboleta com Michel na qual ele fala sobre o evento e o projeto futuro do coletivo.

rosk:
e vai rolar o que no dia?

Michel:
Rapaz, discotecagem de todos os gostos. WC sessions - fotos no banheiro, vai ter umas projeções, vinhetas do coletivo, gente bonita e pá.

rosk:
hmmm

rosk:
e a ideia é virar um festival mesmo?

Michel:
daqui há dois anos;.

rosk:
e ano que vem, quais são os planos?

Michel:
rapaz, produção de curtas, festas, pequenos shows, e quem sabe uma edicao da revista

rosk:
revista sobre musica e literatura?

Michel:
e cinema, e o que tivermos interesse de falar. somos livres bóe.

O Lo Que Sea é mais do que recomendado pelo blogdorosk. Entrada? 2 reais.

Os Contos Peregrinos


Doze Contos Peregrinos é um livro do autor colombiano Gabriel Garcia Márquez, ganhador do prêmio Nobel de literatura de 1982 com o fantástico Cem Anos de Solidão. Márquez é um dos pivôs do realismo fantástico, escola literária surgida na América Latina que trata o irreal, o místico como algo cotidiano, comum.

Neste livro, estão reunidos contos escritos e reescritos durante 18 anos pelo autor e contam histórias de latino-americanos na europa seguindo a linha fantástica, característica do seu estilo. Além disso, tem um prólogo ao qual o Márquez revela a dificuldade de se escrever um conto e as suas agonias de escritor e lança uma frase mortal, da qual desconhece a autoria, mas concorda com o teor "o bom escritor é mais apreciado por aquilo que rasga do que pelo que publica".

Há alguns anos, vi publicado em um blog o conto O Avião da Bela Adormecida. A suavidade da escrita, a poesia da narrativa me fizeram ir atrás do autor daquelas belas palavras. Vi então que o conto havia sido tirado de um livro chamado Doze Contos Peregrinos, de um colombiano de nome Gabriel Garcia Márquez. Fui procurar saber quem era e descobri que ele tinha acabado de lançar mais um livro, Memórias das Minhas Putas Tristes. Fui imediatamente na livraria, comprei o livro e me apaixonei por aquelas palavras. Em seguida, li Cem Anos de Solidão, Crônica de Uma Morte Anunciada, Amor nos Tempos de Cólera e Do Amor e Outros Demônios. Depois disso já me tornara mais do que fã do Gabo, até que, de bobeira numa livraria, me deparo com este livro e lembro que, por causa de um conto dele, conheci o meu autor preferido. Não poderia deixar de comprar a obra.

Os contos de Márquez são tão bons quanto os livros. Eles têm força, vivem poeticamente dentro de prosas bem encaixadas, de histórias criativas, de realidades verdadeiramente fantásticas. O último conto deste livro chama-se, O Rastro do Teu Sangue na Neve. De uma pureza, um lirismo, uma qualidade narrativa que encantam qualquer um e vale o dobro do preço do livro. É difícil explicar em palavras a sensação que a prosa, a narrativa, a história deste conto me causam. É como magia, algo como uma sublimação do conto, ele flutua em mim, mas não de forma instantânea, sim constante e que me vêm cada vez que eu lembro da história. É algo inexplicável comigo e que me faz ter medo até de reler o conto e perder a magia que se instaurou em mim depois de sua primeira leitura. Uma bela sensação. Recomendo a todos a sua leitura e as das demais histórias presentes neste livro.

Produtores independentes resgatam o imaginário nordestino


A arte de fazer rir. Essa é a temática do primeiro documentário do Projeto Vernáculo, realizado pela Fotogramas Cultura e Mídia, produtora cultural formada pelas recém formadas em Rádio e TV, Ianne Maria, Rita Machado e Cleidiane Vila Nova. O Projeto Vernáculo é patrocinado pelo Banco do Nordeste e consiste na criação de cinco vídeos-documentários sobre Cultura Popular do Rio Grande do Norte, o primeiro deles foi o A Gente Se Ri.

O documentário produzido pelo Fotogramas mostra uma das formas mais antigas de se fazer teatro e como ela foi adaptada para a cultura popular nordestina; o teatro de bonecos. Denominado de várias formas diferentes, dependendo do Estado em que esteja o Mamulengo (para os pernambucanos) é um resquício vivo da cultura oral nordestina e uma das formas que o homem pobre do interior do nordeste via de “cano de escape” para satirizar os seus “opressores” segundo a radialista e uma das produtoras do projeto Ianne Maria.

O vídeo alterna depoimentos de seis mamulengueiros de municípios diferentes do Rio Grande do Norte e mostra, a partir daí, como é feito o João Redondo (para os potiguares), desde a confecção dos bonecos de madeira até a elaboração da história e dos personagens. De forma descontraída, os artistas contam as suas histórias e “brincam” arrancando risadas do telespectador que acompanha o documentário.

Entre os entrevistados pela equipe do Fotogramas, está Josivan de Chico Daniel, filho e um dos maiores mestres de João Redondo do país, o potiguar Chico Daniel, falecido em abril desse ano. E também a Dona Dadi, uma mamulengueira de Carnaúba dos Dantas que enfrentou os preconceitos e as dificuldades de ser mulher em nome da vontade de brincar e de fazer essa arte.

Além disso, o vídeo conta também com um trecho de uma entrevista que a equipe do Fotogramas fez com Chico Daniel, pouco antes dele morrer em que ele fala da hereditariedade e da tradição que tem o João Redondo na sua família.

Para a elaboração do documentário foram entrevistados 10 mamulengueiros de 6 munícipios diferentes do Rio Grande do Norte, num período de 6 meses de pesquisa e produção do material. A primeira exibição do vídeo foi na segunda metade de junho desse ano como trabalho de conclusão de curso de radialismo da UFRN. O lançamento oficial foi no dia 8 de agosto de 2007 no Teatro da Cultura Popular em Natal com a presença de alguns mamulengueiros entrevistados além de um coquetel de comida regional.

O teatro de bonecos no nordeste

Segundo os pesquisadores, o teatro de bonecos chegou ao Brasil junto com os jesuítas e como um das formas que eles usavam de catequização. A temática era sempre religiosa e relacionada com passagens bíblicas.

Com o passar do tempo os escravos e os camponeses foram absorvendo essa forma de fazer teatro e passaram a utilizar elementos do seu cotidiano e da sua própria cultura, como as lendas populares, as estórias de cavaleiros e as brincadeiras características do homem do interior. Além disso, houve uma forte influência do “Comedia Dell’Arte“ originário da Itália que apresenta um tipo de personagem velhaco, fanfarrão, contraditório e explosivo, uma das características dos personagens do Calunga (para os paraibanos). A junção desses elementos e a criação de um tipo de narrativa em que o homem do interior se vê desde o linguajar dos personagens, até as situações características do Mamulengo, criaram uma forma de arte divertida em que o sertanejo muitas vezes satiriza as situações de opressão ao qual ele é submetido.

Essa forma de arte foi bastante difundida, principalmente no nordeste e no interior de Minas Gerais. Há registros também da presença dela em São Paulo e no Rio de Janeiro, sob a denominação de João Minhoca. No nordeste as apresentações de João Redondo ocorriam entre as festas religiosas e movimentavam as cidades em que acontecia.

Chico Daniel, o grande bonequeiro

Uma das maiores referências em João Redondo do país foi Chico Daniel, falecido no dia 3 de março desse ano. Natural de Assu, interior do Rio Grande do Norte, Chico Daniel era sapateiro e fazia alegria no interior do Estado com as suas apresentações, sempre regadas à criatividade e a bom-humor. O “bonequeiro” morava em Felipe Camarão, bairro da periferia de Natal e morreu de ataque cardíaco minutos antes de sair para mais uma das suas apresentações.

Chico Daniel deixou um legado de amor à cultura popular e de filhos que, como ele, também se dedicam a arte de brincar, a arte de fazer rir. O bonequeiro morreu aos 63 anos de idade.

Trechos do Documentário


Essa foi a reportagem foi a que me rendeu a seleção no concurso do Itaú de Jornalismo. Cultural

Nota de Repúdio aos cinemas de Natal

Fazem 2 semanas que o filme O Passado do Hector Babenco estreiou em circuito nacional e nada de aparecer por aqui. As duas empresas de cinema aqui de Natal insistem, mais uma vez, no desrespeito ao público natalense, de não realizar as boas estréias no circuito daqui e, conseqüentemente, de repetir os mesmos filmes que estão a semanas passando. O Cinemark e o Moviecom estão a um mês exibindo o filme Hairspray - Em Busca da Fama e continuarão na próxima semana, enquanto isso nada do filme de Hector Babenco passar em terras potiguares.

Em função disso, um desrespeito ao meu ver, escrevi uma nota para as empresas de cinema daqui e mandei por email. Segue abaixo a nota.

Por que vocês não estreiam O Passado de Hector Babenco aqui em Natal? Acho isso o que vocês fazem aqui com estréias nacionais de filmes bons, um desrespeito. Agem como se o cidadão natalense não tivesse bom gosto para filmes e ficam repetindo durante semenas os mesmos filmes ruins e chatos, enquanto que nos outros cinemas da rede realizam todas as estréias nacionais. Um absurdo. Deixo aqui a minha nota de repúdio a essa atitude de vocês.

Atenciosamente
Fábio Farias


Se você também se indigna com isso e quer fazer o mesmo, mande esse texto (ou qualquer outro) para praiashopping@moviecom.com.br e no cinemark entre nesse site e envie. Vamo lutar por uma programação de qualidade por aqui!

Projeta Brasil

Hoje, como consta na agenda fui ver o sétimo projeta Brasil.

Esse tipo de promoção deveria ser a semana inteira e na programação com todos os filmes nacionais lançados até a data. É uma boa iniciativa para levar o brasileiro para o cinema para prestigiar a produção nacional. Apesar de um ou outro sem noção, é bom ver cinema lotado para ver boas obras como Saneamento Básico e O Ano em que os meus pais sairam de férias.

O Ano é melhor que Tropa de Elite, para mim. Aliás, tem uma cena fenomenal, quando o garoto caminha sozinho na rua, enquanto todos assistem o final da Copa de 70, com a camisa do Brasil e com aquele cenário de carnaval esvaziado. Apreensivo, o garoto seguia até a casa do judeu que cuidava dele e que havia sido preso dias antes.A fotografia, a temática do filme e a cena se fundem nesse momento e ela vem com uma significação e uma carga dramática muito forte. Me arrepiei.

O único defeito do filme, para mim, foi o final. Não seguiu a ascensão narrativa, infelizmente. O tão esperado clímax decepcionou um pouco, mas isso não desfaz o filme. Ele consegue despertar vários tipos de emoções diferentes no telespectador e é nostálgico nos faz reviver um pouco a nossa infância. Destaque para a bela fotografia do filme e a boa atuação do ator-mirim Michel Joelsas.

Saneamento Básico é uma comédia que flui, com bons diálogos e situações que ocorrem naturalmente. A idéia foi muito boa, com direito a uma crítica sutil ao financiamento governamental de filmes. Mas o que mais me chamou a atenção nele foi a atuação de Wagner Moura, completamente diferente do Capitão Nascimento. Cheguei a me questionar se o Joaquim, personagem representado por ele, era realmente o mais novo Chuck Norris da internet.

De resto é isso, a iniciativa do Projeta Brasil é muito boa, mas ainda falta mais incentivos por parte das empresas de cinema do Brasil e mais qualidade nos filmes produzidos aqui. Mas isso é outra história...

A Velvet do Cinema



A Velvet é uma loja especializada em discos localizada em Natal aonde você encontra CD's de boas bandas, vinis raros, livros sobre música, DVD's de música e etc... Recentemente a loja abriu um novo espaço que comporta um café, deixando o lugar ainda mais prazeroso de se freqüentar. A Velvet Café e Música é um lugar em que você toma uma boa cerva, ouve música de qualidade e agora assiste a bons filmes.

Na quinta-feira a loja inaugurou uma pequena sessão de cinema que, segundo o seu dono, será semanal e com filmes escolhidos a dedo. Os filmes passarão todas as quintas às 18h00 e serão reprisados nos sábado às 11h30. O primeiro filme da sessão, que convenhamos não deixou a desejar, foi o elogiado e muito bom C.R.A.Z.Y que trata da história de uma família e os seus cinco filhos (cada filho com a inicial do nome do filme) diferentes, engraçados, dramáticos a partir do ponto de vista do quarto filho, o homosexual Zac e a sua relação com os seus familiares. O filme conquistou 10 dos 12 Genie (Oscar canadense) e tem uma trilha sonora filha da mãe (no melhor sentido de todos, é claro) com nomes como Pink Floyd e Stones. Segundo a crítica do Zeta Filmes o longa de Jean Marc Valee teve problemas de sair das fronteiras do Canadá por conta dos direitos autorais da trilha sonora e foi eleito, em 2005, como o melhor filme sem distribuição.

Vale a pena conferir tanto o filme quanto as sessões na Velvet. Um ótimo programa para as quintas e sábados.

Abaixo o trailler de C.R.A.Z.Y

Agenda do mês

Eu vi isso num blog e como bom farsante que sou resolvi copiar :) Mas vou fazer de um jeito um pouco diferente, colocarei aqui os eventos do mês e quem tiver mais algum para acrescentar eu atualizo esse post. Vou colocar a agenda também no canto direito desse blog.

Novembro na nossa querida cidade do sol acontecerá:

5 de Novembro:Projeta Brasil do Cinemark. Cinema nacional por apenas dois reais com a exibição de filmes como o "Ano em Que Meus Pais Sairam de Férias" filme que tentará uma indicação para o Oscar como melhor filme estrangeiro, "Saneamento Básico" do incrível Jorge Furtado, o polêmico "Tropa de Elite" e os globais "Cidade dos Homens" e "O Homem que Desafiou o Diabo". Quem quiser encontrar esse blogueiro saiba que segunda-feira ele estará lá.

11 de Novembro: Show do Forgotten Boys no Dosol Rock Bar. Gosto muito da sonoridade e do estilo da banda. Apesar deles terem feito já 2 shows (salvo engano) esse ano por aqui, não vi nenhum e meus ouvidos anseiam por música de qualidade ao vivo. A entrada custa 10 reais.

12 e 13 de Novembro: Terceira edição do Festival Universitário de Curtas, o CurtaCom na FIERN. É um festival que vem crescendo a cada ano e promovido pelos alunos de Radio e TV da UFRN. Houveram 45 curtas inscritos, o mesmo número do Curta Natal e os melhores serão exibidos na TVU. Este ano, como novidade, terá mostra competitiva de fotografia. Vai valer muito a pena conferir, além disso estarei competindo com três fotos minhas. Entrada? de grátis.

15 e 16 de Novembro: Rock na Rua em sua terceira edição. O festival é uma inciativa legal da Camila Pedrassoli e esse ano 11 das 21 bandas foram escolhidas por uma conturbada votação pela internet. A grande parte das bandas que tocarão no festival são muito ruins, tocam o mesmo rock óbvio de sempre. Mas o preço do festival é bom e parte do dinheiro será doado e, como em Natal, é díficil ter algum lugar bom para sair, irei para o festival. Entrada: 1 dia, 3 reais, casadinha: 5 reais.

26 de Novembro: Indie Disco Summer Editions. A edição desse mês trará os divertidos cidadões vindos diretamente de michegan, Barbiekill. Um eletro-rock dançante. Também terá Eletrobilhar, The Cash e discotecagem Rock. Não gosto de eletro-rock, mas curto eletrobilhar e quero conferir o The Cash e a discotecagem rock. Entrada: 5 contos de réis

SEM DATA: B.E.R.E: Festival Barulhos Estranhos Ruídos Esquisitos ADIADO PARA DEZEMBRO.

Reitero: Na medida que aparecer os eventos, eu vou adicionando aqui no Blog e quem tiver boas sugestões, elas serão acatadas com prazer.
"Todo adversário impõe respeito, exceto o América de Natal..."

Luciano do Valle comentando o jogo do São Paulo contra o América


Pobre do nosso mequinha!

Frase do dia

"Nós faremos uma copa para argentino nenhum botar defeito."
Lulão na cerimônia que oficializou o Brasil como país sede da Copa do Mundo de 2014

O Mossoró da Feira do Livro

Mossoró é um município que fica a aproximadamente 280 kilômetros de Natal, no Rio Grande do Norte. Ela é a segunda maior cidade do Estado e é muito lembrada pelo seu calor infernal, e o famoso termas, um hotel/parque aquático natural com "piscinas" quentes. O povo mossoroense nutre um orgulho ímpar de sua cidade, bem diferente do natalense, que valoriza mais o estrangeiro, o forasteiro. Mossoró foi a primeira cidade a libertar os escravos, 5 anos antes da princesa Isabel (tá certo que por lá não haviam muitos escravos). Em Mossoró, Lampião e seu bando, ou o bando de Lampião sem ele (isso é motivo de polêmica por aqui) foram expulsos da cidade e dizem que o seu principal companheiro, Jararaca, foi morto e enterrado lá, pela própria população. Foi a cidade em que aconteceu o primeiro voto feminino da história do Brasil. E é a cidade do glorioso Baraúnas que, na copa do Brasil de 2005, venceu o Vasco em São Januário por 3 x 0, depois de bela atuação do craque Cícero Ramalho.

Lá na nossa querida Mossoró, existe uma editora chamada A Mossoroense, fundada por Vingt-Un Rosado, membro da família mais influente da cidade. Essa editora possui a maior bibliografia sobre a seca do Brasil com cerca de 900 títulos. Além disso foi responsável por publicações de pessoas anônimas a ilustres como Câmara Cascudo. No auge da editora, chegaram a ser publicados cerca de 400 livros por ano o que a tornou, simplesmente, o maior catálogo de livros publicados no Brasil segundo a Caros Amigos de agosto.

Mas, por que escrevo sobre essa simpática e calorenta cidade agora? Escrevo porque lá está ocorrendo, neste exato momento, a Feira do Livro de Mossoró, com uma programação de fazer babar qualquer cidadão que reside em Natal e que gosta de livros. Está bem melhor que a programação da Bienal do Livro de Natal que ocorreu este ano. E o grande diferencial da Feira: a produção está investindo em escritores novos. Pessoas como Marcelino Freire e João Paulo Cuenca estão lá, além dos nossos queridos jovens escribas Carlos Fialho, Patrício Jr e do já lendário Pablo Capistrano. Fora a presença dos escritores novos, temos o ilustríssimo Xico Sá, o Paulo César Araújo (autor da polêmica biografia de Roberto Carlos), o homem que desafiou o diabo, Nei Leandro de Castro e o global Caco Barcellos. A feira conta ainda com oficinas de conto, de poesia infantil, de cordel e até de blog, ministrada pelo Patrício. E hoje, mais tarde, irá ocorrer um debate sobre literatura e cinema com Daniel Galera, Rodrigo Levino e Nei Leandro de Castro e ao final terá a exibição do longa, O Homem que Desafiou o Diabo.

Ou seja, a feira está sensacional. Quem não pôde ir a Mossoró aproveitar a programação, como eu, fica por aqui corroendo-se por dentro com muita vontade de visitar a cidade e aproveitar essa deliciosa programação. Mas nem tudo são prantos. Pelo blog do Jovens Escribas, do Patrício Jr e a coluna do Rodrigo Levino na Digi, é possível matar um pouco essa vontade de estar lá acompanhando as notícias e notas do que está ocorrendo na nossa querida Mossoró.

Então Voe

- Então voe! Gritou o homem de barba cinza, incrédulo com a audácia do menino.

Marcos era um rapaz teimoso. Sabia que podia voar e não era um velho de barba cinza que o faria desistir. Dentro dessa convicção; pulou do teto de sua casa. De início, teve a súbita sensação de vôo, mas de repente uma força estranha o puxou para baixo com tamanha intensidade que sentiu-se sugado em direção do chão. Acabou numa fratura no braço esquerdo, uma perna quebrada e muita dor de cabeça.

- Tá vendo rapaz teimoso! Disse o homem de barba cinza com aquele ar de superioridade dos adultos frustrados - Tá pensando que é o que? Gente não voa, moleque.

Marcos teve vontade de gritar e mostrar que quase conseguiu. No entanto, vendo que o homem de barba cinza, afinal, tinha razão decidiu sabiamente calar-se ir ao hospital para curar aquele braço enfermo e perna direita que incomodava bastante.

Voltando do hospital, Marcos decidiu estudar os motivos pelos quais o vôo não fora bem sucedido. Subiu até o telhado, estudou minuciosamente as telhas, sentiu o vento no rosto, conferiu altura do local, verificou seu cadernozinho que tinha todas as instruções prévias de vôo copiadas de um desenho animado e tentou imaginar o que lhe fizera cair de modo tão brusco e tão forte no chão. A solução não tardou a vir.

- Sim! O vento! Não havia vento o suficiente naquele momento!

Um sorriso de esperança brotou como nunca naquele rosto de apenas dez anos de idade. Decidiu chamar, com o braço enfaixado, o velho de barba cinza. Agora ele finalmente provaria que voar era algo simples e bastava querer, imaginar e se jogar do telhado de casa para conseguir e que as pessoas eram umas bobas em acreditar naquele troço de gravidade. Imaginação é tudo. Falou-lhe que havia descoberto o motivo pelo qual ele não houvera voado e que agora ele iria voar de verdade e todos iriam ver. O Velho, incrédulo, deu risada da cara do menino e topou presenciar a segunda tentativa.

O menino então subiu para o telhado. Sentiu o vento com força batendo no seu rosto e teve a certeza que era mais do que o suficiente para garantir um bom vôo. Tomando cuidado com o braço e puxando um pouco a perna, estudou o céu e viu que as condições eram as melhores possíveis. Imaginou o oceano visto de cima e os olhares incrédulos das pessoas. Viu-se apertando a mão do Cristo Redentor, dando um olá à Estátua da Liberdade, contornando o mundo todo por cima. Sem falar que poderia também visitar a sua avó que morava numa cidadezinha distante e comer mais um pouco daquela comida que só as avós têm o poder de fazer. Foi tudo tão real que a covardia, já escassa, abandonou o menino, afinal a covardia é a virtude dos que não sonham e dos que não imaginam. Subiu então ao ponto mais alto do teto de sua casa. A uns 30 metros do chão.

A covardia e a razão ainda não houvera abandonado o senhor das barbas cinzas e lhe fizeram gritar:

- Menino louco! Não pule daí, Está muito alto!

Mas era tarde. Marcos já havia pulado. E no momento em que o Velho gritava, ele estava sentindo toda a plenitude do vento batendo em seu rosto. Não acreditava, estava mesmo voado! Via as pessoas lá de cima, sentia uma paz irracional invadir todo o seu ser. O que lhe motivou a dar piruetas pelo ar e a brincar enquanto volitava. Marcos estava experimentando, e tinha a plena noção disso, a felicidade completa e inatingível.

Pensou em fazer tudo aquilo que havia imaginado. Começaria pela Estátua da Liberdade, passaria pela casa da sua avó para comer um daqueles bolos de chocolate. Porém, antes de ir, notou algo interessante. Mas algo lhe chamou a atenção. O senhor de barba cinza estava no chão chorando incessantemente. Ao aproximar-se viu o motivo das lágrimas. Era ele, com a cabeça toda ensangüentada, sem vida, com os olhos ainda abertos, estirado no chão com os braços em forma de cruz, como se abraçasse o chão. Não acreditava naquilo. Não podia ser eu, pensava o menino. Ora ele estava ali, logo ali em cima voando e vendo tudo aquilo. Esse, definitivamente, não sou eu, pensou o menino. Nem o azul dos olhos esse corpo estirado no chão tinha. Tendo a certeza de que aquilo que estava deitado no chão não era a sua essência, partiu em vôo maluco pelo mundo.


Ps. Da série contos antigos. Marina me relembrou da existência dele.

A Mauricinhagem Nariguda

Isso ja é fato público e repetido trocentas vezes. Roubaram um rolex do apresentador global Luciano Huck, em São Paulo, na semana retrasada. Relógio caro e que tinha sido dado pela sua esposa. Após o roubo, indignado (ou emo?), o apresentador escreve um texto falando do absurdo que foi o assalto, logo com ele, que ajuda (?) tanta gente no seu programa de auditório e, ainda, é presidente de uma ONG. Tadinho. E ainda expressa que poderia ter morrido durante o assalto. Ferrez, escritor e músico, escreve um conto, bem criativo por sinal, mostrando o assalto sob a perspectiva do assaltante.

Vamos aos fatos. Uma pessoa foi roubada. Roubo é crime. Logo quem pratica roubo é criminoso. E lugar de criminoso é na cadeia. Isso é uma verdade incontestável e inegável, seja o assaltado Luciano Huck, seja Ritinha, a empregada da minha casa. O assaltante deveria ser preso pelo que fez. Não me resta dúvidas disso.

Mas o que me deixou irritado com o apresentador global foi a forma que expressou a sua "indignação". Como se fosse um absurdo alguma alma sebosa roubar logo dele, um cara tão legal com as pessoas e que, pasmem, nem anda de carro blindado, presidente de uma ONG e que, ainda por cima, ajuda as pessoas no seu programa de auditório. Muito sebosa mesmo essa alma, se fosse uma boa alma, esqueceria o rolex sabendo que o dono dele é o tão legal Luciano Huck. Incrível essa lógica que ele joga no texto, cheia de celebridadismo crônico. Além disso, o apresentador temeu a sua vida, pela primeira vez. Milhares de pessoas honestas e que vivem pagando impostos são obrigadas a conviver com armas apontadas para elas nas periferias e nas favelas brasileiras todos os dias. Seja essas armas de traficantes/criminosos seja armas de policiais mal preparados. E Huck só se indignou com a situação brasileira atual depois que perdeu o seu reloginho de ouro. Ah meu Deus.

Ferrez, em seu texto, apesar de eu descordar um pouco com a afirmação final, foi feliz. Ele conseguiu mostrar (ou pelo menos tentou) para o global que a "ajuda" dele no seu programa de auditório, não passa de submeter pessoas a situações ridículas, inclusive humilhações, para ganhar uma mixaria, porque, se fosse colocado na mesa o quanto a Globo fatura em contratos publicitários no programa de Huck, verão que os 10, ou por vezes, 30 mil que ele oferece no programa não chegam nem a 5% de tudo o que ganham com as situações humilhantes que fazem o povo passar. Foi feliz também em mostrar o oceano de diferença entre Huck e o criminoso. Se o assaltante fosse pego depois do crime, levado uma surra dos policiais e depois morresse na cadeia, por causa de um Rolex que garanto a todos, Luciano Huck tem dinheiro para comprar mais 100 no mês que vem, ele viraria mera estatística. Se o global morresse, seria um festival de comoção nacional contra a violência do país e pela morte do apresentador. Não duvido que pediriam até o impeachment do presidente por causa do narigudo. E talvez fosse até bom que ele morresse mesmo, porque ai pressionaria o governo (que infelizmente só funciona sob pressão) para melhorar as políticas de segurança pública e sociais.

Ou seja, seu artigo na folha não passou de um mijada nas calças de um mauricinho que não conhece 10% da realidade brasileira. E que fora as revistas de celebridades, não teve quase nenhum impacto na mídia nacional. Apesar de eu concordar com algumas reflexões que ele faz quanto a necessidade gritante de melhoria na segurança pública e sociais nesse país. Pena que ele foi só entender isso depois que a violência bateu a sua porta, como acontece com a maioria dos brasileiros e políticos desse país.

Enfim, o que me deixou mais puto nessa história toda, foi o kibeloco. Eu já havia percebido uma queda na qualidade das piadas do site e um interesse maior nas piadas políticas quando o Tabet se vendeu para a Globo. Principalmente piadas de mal gosto contra políticos ou situações políticas, sempre dentro do espectro editorial da emissora. Antes as piadas quase não tinham esse aspecto político degenerativo e eram mais tiração de onda mesmo. Mas a piadinha que ele fez sobre o Ferrez, foi completamente estúpida e sem graça. Uma das piores que vi no site (acompanho o kibeloco desde 2004). O que me faz pensar que o Tabet não vendeu apenas o domínio do seu site e a sua inteligência (o que são coisas em que não há problemas em serem vendidas) mas a sua alma. Lamentável.

O Radiohead da MP3


Para quem não sabe, o In Rainbows, o último CD do Radiohead, foi disponibilizado na Internet. Você pode baixá-lo diretamente no site oficial sem pagar nada, ou pagar a quantia que quiser pelo disco. Álbum, aliás, muito bom. Essa atitude da banda inglesa fez reacender o velho debate das gravadoras x mp3 e pode representar um marco na mudança das relações entre consumidor musical e vendedor/produtor.

Sinceramente, para mim, os ingleses estão de parabéns. Não adianta ficar insistindo na mesma tecla que a MP3 é ilegal, nem ficar proibindo o acesso a ela, isso não vai adiantar de nada como não adiantou nos últimos 8 anos. A MP3 é a grande revolução cultural do século XXI. E ganha quem souber melhor utilizá-la. O formato mudou até mesmo o conceito de fama, de celebridade no rock, exigiu dos artistas performances ao vivo para serem valorizados. Acabou com a "febre dos singles", quando uma banda estourava porque conseguia fazer uma única boa música. Cansei de ouvir bandas de uma música só e de CD ruim. Acabou (ou pelo menos quase) com o jabá das rádios. Acabou com artistas fabricados em laboratório (aqueles que conseguiam lançar um CD não por talento, mas por corrigir distorções na voz ou nos instrumentos em estúdio). Hoje uma banda é boa porque conseguiu fazer um álbum realmente bom, porque faz performaces boas e nos shows vende os seus CDs, as suas camisas, bottons e etc.

E o mais importante, a MP3 fez renascer os festivais de música. Tem em todo o país e de todas as vertentes do rock. Os festivais são excelentes para bandas novas, para a projeção delas no país e para o público que pode ver o que é produzido em escala nacional, ao vivo, porque o produtor do festival ouviu o álbum de uma banda lá dos cafundó do breja e gostou. Não havia grandes festivais no auge das gravadoras, ali na década de 80 e 90. Não havia inovação musical. E a relação artista-fã era algo separado por rios de distância. Hoje você pode tomar uma cerveja com o pessoal de uma das suas bandas preferidas, discutir música com ele e até virar seu amigo.

A MP3 democratizou o rock. A música, em si, ainda não. A MPB agora está seguindo nessa onda, com artistas novos, criativos e que fazem sucesso graças a grande rede. A Mp3 é a nossa grande revolução cultural. Tá certo que foi responsável pela demissão de muita gente, mas isso aconteceu porque os empresários da música ainda não aprenderam a pensar em como se readaptar nesse novo universo. Pensam apenas nos lucros bilhonários que não têm mais. Para o músico, o bom músico, foi melhor porque valorizou a qualidade e o talento dele, não a difusão massificada de "pseudo músicos". E o faturamento das bandas, tá certo, diminiu, mas ainda é bom para quem faz música por prazer e dá sim para sobreviver nesses tempos de capitalismo selvagem.

Seleção do Itau Cultural

Finalmente posso colocar a boca no mundo e falar:

Esse distindo blogueiro foi um dos 17 universitários selecionados no concurso do Itaú Cultural Rumos 2007, na categoria webreportagem de Jornalismo Cultural, com uma matéria sobre o vídeo documentário A Gente se Ri, da produtora independente daqui do Estado, o Fotogramas Cultura e Mídia.

Segunda-feira, o release estará sendo enviado para toda a imprensa com a divulgação dessa notícia :D

Não sei se posso disponibilizar aqui a reportagem que fiz que me rendeu essa seleção. Vou tirar as minhas dúvidas quanto a isso e se possível, colocarei-a aqui. Mas quase não consigo me conter aqui de felicidade por essa seleção. Entrei no concurso para participar da categoria videoreportagem, inicialmente, com uma reportagem que eu tinha feito sobre os Jovens Escribas, em abril deste ano. Mas não consegui encontrar a fita na TVU a tempo. Quando vi que era possível cadastrar uma reportagem para web (tipo de jornalismo que eu quero seguir), me animei e fiz a reportagem sobre o documentário. Não esperava nem um pouco ser selecionado, eram 70 inscritos na minha categoria e no máximo três iriam ser contemplados.

E, quando estava de bobeira, recebi a ligação do Itaú falando que eu tinha sido selecionado. Tô muito feliz, porque essa seleção não será boa apenas para mim, será também para o curso de Comunicação Social da UFRN, descreditado por muita gente que não conhece nem 10% da nossa realidade atual. Temos problemas lá, temos inúmeros, mas também temos coisas excelentes que contribuem muito para as pessoas que querem realmente se formar como profissionais da mídia.

De resto, é só esperar a viagem para São Paulo no final do ano e participar do laboratório de jornalismo cultural (sempre quis conhecer São Paulo) que será realizado no ano que vem com uma bolsa mensal para os participantes e um monte de outras coisas lá que estou com preguiça de citá-las.

E tomaaaaaar uma para comemorar :D

Batata

Parecia uma celebridade. A multidão acotovelava-se diante de uma grande porta branca que tinha um cartaz na frente escrito em vermelho: É permitida apenas a entrada de funcionários no local. A batata era a coisa mais falada e esperada do supermercado até então.. Vez ou outra, alguma das senhoras, baixinhas e com óculos, impaciente gritava "a batata ai demorar!?" para algum dos funcionários, vestidos de brancos e que tinham livre acesso a porta da felicidade. O silêncio dos funcionários era enigmático.

De súbito, sai um homem com cinco sacos cheios de batatinha inglesa. Os seus colegas atrás dele abrem sorrisos. E a multidão, enfurecida, quase derruba o pobre funcionário e consegue, ainda que no chão, abrir a unhadas ferozes uma das sacas. O pobre funcionário, assustado, volta para o interior do seu refúgio. Eram corvos descontrolados catando cada batata que viam. Não havia tempo sequer para respirar, se não perderia as batatas. O saco assistia, despedaçado, a fúria de vários seres humanos, principalmente do sexo feminino, catando enlouquecidamente os tubérculos que ele carregava.

Os mais fracos e os que não se dispuseram a "virar mundiça", como reza o vocabulário local, reclamavam atrás dos corvos que as batatas mal sairam de perto da grande porta e que só alguns poucos tiveram a oportunidade de catar uma daquelas maravilhas. Dentro da sala, pela porta transparente, dava para notar que os trabalhadores do supermercado estudavam a melhor forma de passar pela multidão e depositar as batatas no lugar em que elas deveriam ficar. Um, corajoso, dispõe-se a levá-las em bacias quadradas. Ele espera a multidão esvaziar o saco, estralhaçado no chão, e sai, corajoso, por entre homens, mulheres e crianças insandecidos para pegar uma batata. Já próximo do seu destino, alguém, com certeza mais apressado, enfia a mão em uma das bacias e o povo, invejoso da inteligência e da rapidez de fulano, repete a sua atitude. Resultado: o pobre do funcionário quase despenca no meio da multidão segurando quatro bacias lotadas do vegetal precioso. Por pouco não acontece uma tragédia da batata no Rede Mais Ponta Negra.

Essa cena eu tive o (des)prazer de ver hoje, de perto, enquanto aproveitava a liquidação de aniversário (?) do supermercado Rede Mais, próximo da minha casa. Nunca vi supermercado mais lotado. Pudera, a maioria dos produtos estavam bem abaixo do preço normal. As batatas, por exemplo, custavam a bagatela de 29 centavos o kilo. O que deve ter movimentado, com toda a certeza, o comércio de vendedores de batatas-fritas das paradas de ônibus e locais de grande concentração de público em Natal. Batatas-fritas, aliás, muito gostosas, apesar da excessiva quantidade de óleo e do modo, digamos, natural que elas são preparadas.

Essa promoção ocorreu mais mesmo por causa da inauguração do hipermercado Extra, ao lado do nosso querido e simpático Rede Mais. O Extra tem o dobro da extensão do Rede Mais e ainda por cima, faz parte de uma rede de supermercados brasileiros riquissima e presente em quase todos as grandes capitais brasileiras. Exatamente por isso e pelos lucros altíssimos que a rede deve ter, faz possível que ela entre em competição de igual para igual com os também gigantes Hiperbompreço (comprado pela multinacional Wal-Mart) e o conhecido Carrefour. Os mercados menores, como o Rede Mais e o Nordestão (não tem nem site), os únicos remanescentes desde a chegada do Carrefour em Natal, há cerca de 10 anos, tem que apelar para promoções loucas e clientes fiés para se manterem no mercado. Se não, terão o mesmo destino que outros tantos supermercados de empresas menores tiveram: a falência.

Enfim, não vou dar uma de defensor dos pequenos supermercados, nem criarei uma ONG para isso, mas o que me dói mesmo foi não ter levado a minha câmera para registrar em fotos o que eu vi no Rede Mais agora pouco.

Fraude em concurso do FestNatal

O FestNatal estava realizando um concurso, via internet, do melhor apresentador de telejornais aqui do Estado. Um amigo meu, Thiago César, é apresentador de um programa na TV União e por não ser um programa lá de grande audiência e ele ser um mero estudante de jornalismo, a foto dele nem o programa constavam na lista de votação. No entanto, podia-se votar em "outro", preenchendo o nome do candidato.

Alguns colegas da faculdade fizeram uma campanha dentro do curso mesmo entre os conhecidos de Thiago para votarem nele todos os dias. Resultado, nosso querido amigo ganhou a foto dele no site e começou a ficar em primeiro lugar nas votações. Todo mundo votava todo dia só para ver até aonde isso tinha que dar (só era permitido um voto por dia). O segundo colocado era Geider Henrique, apresentador da TV Cabugi, retransmissora da Globo aqui em Natal e, quando notaram que Geider estava perdendo para um simples aspirante a foca, começaram a enviar recados de um perfil fake para Thiago supondo que ele estaria usando métodos ilícitos para conseguir votos. Mas isso não existiu. O que acontecia era que vivíamos no site votando no nosso nobre amigo. De repente, de um dia para o outro (eu votava e acompanhava os resultados diariamente), Geider conseguiu 200 votos, tirando a diferença de votos de Thiago e abrindo mais 100 de vantagem. O apresentador poderia estar muito bem fazendo campanha em prol dele, ou não.

Acontece que ontem a assessoria do FestNatal divulgou nota dizendo estar cancelado o concurso por suspeita de fraude e informando ainda que alguns apresentadores teriam se retirado oficialmente por conta disso.

Muito estranho, só espero que não pensem que Thiago usou de fraude para conseguir seus votos porque eu e mais um monte de gente do curso de Comunicação da UFRN votavamos diariamente nele. E muito estranho também essa ânsia de Geider de ganhar um concurso que para ele não terá significado nenhum além de um troféu em casa e uma foto no jornal.
A Cooperativa Cultural da UFRN realiza concurso de contos e poesias em comemoração aos seus 30 anos de existência. O regulamento está disponível no site. O concurso é aberto para alunos, professores e funcionários da universidade. A premiação será em dinheiro e créditos para compra de livros. O 1º colocado receberá um cheque de mil reais da entidade, mais 200 reais de créditos para compra de livros. Um baita prêmio.

O autor desse blog irá participar, apesar de pensar que não tem contos suficientemente bons para tal. No entanto, ele não sabe qual conto escolher, este, ou este, ou algum mais antigo (olhar arquivo)? Quem me ajudar e eu for premiado, será devidamente recompensado.

Hiato criativo

O hiato criativo ficou famoso depois que Los Hermanos se referiram a ele como motivo da sua separação, para tristeza de muitos fãs e alegria de outras pessoas. Eu, pessoalmente, achei bom terminarem (ou se dedicarem a outros projetos, como reza o eufemismo musical) . Eu gostava de Los Hermanos, mas eles já deram o que tinha que dar e o projeto novo do Amarante com o músico Devendra Banhart parece ser interessante.

Enfim, voltando o hiato criativo. Googloando essa palavra, ou melhor, essas duas palavras, nota-se que muitos posts em muitos blogs são sobre esse determinado assunto. Inclusive, um blog é batizado com esse nome. Hiato criativo. O termo hiato é classificação gramatical que tem o seu oposto o ditongo. O hiato, para quem não se recorda das aulas de gramática do ensino fundamental, acontece quando, ao separar as sílabas de determinada palavra, duas vogais se separam. Canoa, por exemplo, é um hiato.

Eu não preciso definir criatividade aqui, porque imagino que o leitor desse blog sabe o significado dessa palavra. Mas criativo, no termo, hiato criativo, é uma qualificação. Funciona como um adjetivo. É um hiato, mas que é criativo. Hum, vejamos. Hiato é separação das vogais nas sílabas. Logo hiato criativo seria a separação criativa das vogais nas sílabas e não teria nada a ver com falta de inspiração algo que remeta a isso (ou teria e eu estou sendo chato?). Enfim, mas é uma boa junção de palavras, tem uma sonoridade legal e é o hype do momento para se referir a falta de criatividade.

E é exatamente isso que eu estou passando. Falta de criatividade para escrever no blog. Falta de assunto mesmo. E a pior coisa que existe é escrever sem tesão. As palavras não fluem e o texto acaba saindo uma merda. Quase como esse aqui. Espero que os meus poucos leitores compreendam.

Ah e existe até uma comunidade no orkut com esse nome.

Fotografia


apresentacao_cerro_cora (28), upload feito originalmente por fabiorosk.

Essa foto me emocionou de um jeito, essa menina é a coisa mais linda que eu ja vi.. Com toda certeza, para mim, a melhor foto que eu tirei :)

Ah, to sem postar esses dias por conta do meu trabalho na FOTEC durante a CIENTEC 2007, semana que vem, voltarei ao normal (acho).

Polêmicas do Jornalismo


O curso de jornalismo é um curso polêmico, talvez o mais polêmico de todos. Primeiro porque neguinho entra e começa a estudar teoria da comunicação e vê que ainda não há algo certo sobre o que é comunicação. O que há são milhares de teorias diferentes. Prossegue estudando teoria até chegar em teorias do jornalismo e se depara com algo mais intrigante ainda, os teóricos ainda não sabem definir com precisão o que é jornalismo.

Até aí beleza. No campo profissional, temos outra polêmica: assessoria de imprensa é ou não é jornalismo? Para mim não é, mas se eu disser isso para outras pessoas é capaz delas quererem me matar. A outra é quanto ao fim do jornal impresso, há quem diga que em menos de 50 anos eles terão acabado, assim como os livros, eu discordo. E isso dá muito pano pra manga para discutir.

E existe ainda a polêmica quando se está trabalhando. O que vem primeiro, a linha editorial do jornal ou a sua própria ideologia? Deve-se abrir mão totalmente da ideologia para conseguir um emprego?

E assim vai, tem outras polêmicas também, como a da linguagem, será que manual de redação e estilo não limita a capacidade criativa e crítica do profissional? E quanto a objetividade, a questão básica, existe objetividade? E daí pegamos outra, existe imparcialidade? O que é ser objetivo (ou imparcial)?

E por fim temos a da academia. É realmente necessário um curso de jornalismo ou não seria melhor uma especialização de ciências sociais como na europa?

As Pelejas e o Cinema em Natal

Fui "atarefado", ou melhor, indicado por naldinho para falar acerca das expectativas da estréia do filme O Homem que Desafiou o Diabo, baseado no livro do potiguar Nei Leandro de Castro, dirigido pelo também potiguar Moacyr Góes e gravado em terras potiguares. E também da relação entre o cinema no RN e o cinema no cenário nacional.

A pré estréia do longa global, que conta no seu elenco com Marcos Palmeira, ocorreu na semana passada no cinemark em sessão fechada para imprensa, pessoal que participou da produção do filme e sortudos que conseguiram o ingresso. Tenho amigos que viram o filme e o classificaram como mediano.

A expectativa de quem gosta de cinema ou de quem leu o livro do Nei Leandro (por sinal, muito bom o livro) é de ansiedade. Nessa sexta será a estréia e com toda a certeza as salas de cinema aqui estarão recheadas desse público. Mas do ponto de vista do público em geral, não vejo muita expectativa. Houve mais na estréia do longa do Padre Marcelo que foi gravado por aqui também, o Maria, Mãe do Filho de Deus. Quanto a mim, perdi um pouco dessa expectativa pelo que alguns amigos me falaram sobre o filme. Mas, com toda a certeza estarei na estréia (se for possível) vendo o resultado do trabalho.

O que é indubitável é que o longa foi gravado e estreiará num momento de efervescência do cinema potiguar. E, talvez, depois da década de 60, num dos melhores momentos. Natal sempre foi uma cidade "cinematográfica" principalmente na época da ocupação americana nas nossas terras. Vários cinemas espalhados pela cidade e um cineclube muito atuante e forte, que foi o Cineclube Tirol. A década de 80 e até início dos anos 2000 foram a idade das trevas do cinema potiguar. Não havia produção cinematográfica e a exibição de filmes, com a falência dos cinemas da ribeira no final da década de 80, se reservavam a apenas 2 salas que passavam o circuito comercial e mais 2 que eram reservadas para o "circuito pornô".

A criação do curso de Rádio e TV e o ressurgimento do cineclube, sem falar no aumento do número de shoppings, contribuiu para melhorar esse quadro. E hoje temos uma produção de curta-metragens, sobretudo universitários, muito bom, oficinas de cinema se espalham pela cidade, uma exibição ainda fechada no circuito comercial, mas que tem ao menos mais opções do que antigamente e um cineclube atuante exibindo sempre bons filmes. Sem falar nos festivais de curta e longa metragem que antes não existiam e hoje temos três destes regulares. E, fora isso, alguns longas sendo produzidos por aqui, por pessoas daqui. É claro que o cinema potiguar ainda está muito atrás da maioria dos grandes centros urbanos do Brasil. No entanto, existe boas perspectivas por aqui.

A Bela Adormecida

Eu a admirava fazia alguns meses. Cabelo avermelhado, altura mediana, olhos castanhos, boca carnuda e aquele jeito de andar e de olhar que me tiravam do sério. Ela sabia muito bem da minha admiração física por ela. Não tinha como esconder isso dela. Era a mulher mais bonita que eu já havia visto e, como bom poeta, sempre acreditei que o que talvez seja uma das melhores coisas que a natureza fez, uma das mais esplendorosas, é a beleza e a sutileza de uma mulher.

As mulheres tem um jeito único e uma forma de beleza que até nas mais feias se encontra. É impressionante a perfeição da obra que é o ser feminino. E as mais belas então... É pura covardia com os homens como eu que são obrigados a passar o resto da suas vidas a admirar essas belas mulheres. E por ela, eu passaria o resto da minha existência apenas admirando-a no seu andar, no seu falar e no seu pensar-em-nada tão belo, tão sutil, tão poético. E, naquele dia, eu não aguentava o tamanho prazer de vê-la, nua, dormindo na minha frente.

Dormir nua. Foi essa proposta que lhe fiz no dia anterior. Falei que pagava a quantia que quisesse apenas para admirá-la dormindo nua, do meu lado, no meu apartamento. Vi quando seus belos lábios riram da minha proposta senil, vi o quanto o seu belo par de olhos dobraram quando falei que não era loucura minha e que aquilo era mais sério do que nunca. Ela virou o rosto fazendo com que o seus longos fios cabelo batessem levemente no meu rosto e soltando um cheiro de rosas. Sorriu e perguntou-me novamente acerca da minha proposta. Confirmei as minhas intenções e as reforçei dizendo que sabia muito bem que nunca a teria como mulher.

Mulheres desse tipo não são para canalhas como eu. Eu sabia muito bem disso e não estava disposto a querer provar isso para ela. Até porque ela namorava com um rapaz qualquer, aliás, qualquer não, um sortudo. Quando a conheci e descobri esse pequeno detalhe, vi que ela não era para mim. Namorava já a mais de 5 anos e pensava-se em casar-se com o felizardo. Um homem comum, sem nenhuma poesia dentro de si. Isso, francamente, decepcionou-me quanto a ela. Escolher alguém assim, tão pobre de lirismo, tão comum, tão normal e tão chato no seu modo de agir fez-me ver que com ela, muito provavelmente, eu não teria nada, além da sua amizade.

Ela então contou-me que precisava de um quantia não muito grande de dinheiro para ajudar a sua avó. Contou-me que estava desesperada por esse dinheiro pois havia perdido o emprego e não queria pedir isso ao namorado que ganhava pouco. Achei o valor justo. Mas antes de fecharmos ela certificou-se de que eu não a tocaria em momento algum e que ficaria apenas a observando dormir. Dei a minha palavra quanto a isso, não queria estragar o momento. Marcamos então para o dia seguinte. No meu apartamento, às 21.

Ela veio. Nunca esquecerei o modo com que entrou no meu apartamento e olhou tudo aquilo. A risada, como se não acreditasse na minha proposta louca e na loucura que estava fazendo. Refez as suas exigências de que eu não a tocasse em nenhuma instância. Reafirmei tudo aquilo que tinha dito no dia anterior. E ela me disse que aquilo tudo deveria ficar apenas entre eu e ela. Ela falou que amava demais o seu namorado e não conseguiria se imaginar sem ele. Eu, conformado com aquilo tudo, arrumei a cama do melhor modo possível. Ela despiu-se e eu pude ver a poesia do seu corpo. Era um perfeito soneto, dois quartetos e dois tercetos escritos naquela bela pele moreno-claro, tão lisa e tão suave que me enlouqueceram quando notei a textura e o cheiro sutil que dali exalava. Era mais bela ainda nua.

Deitou-se após tomar um pequeno comprimido para dormir. Eu, sentei-me a frente da cama, acendi um cigarro e abri um vinho tinto para aproveitar o momento. Era linda, perfeitamente linda com aqueles olhos fechados, aquele jeito infantil de dormir e de sonhar com o seu namorado sem graça, era magistral a forma com a qual ela passava o braço de um lado para o outro da cama procurando a melhor posição. Não me contive de prazer nesses momentos inesquecíveis. Deitei-me então ao seu lado e fiz as maiores e mais absurdas promessas de amor que eu já fiz. Recitei versos de amor total e dedicação exclusiva para ela. E chorei de imaginar que nunca a teria. Tive vontade de acordá-la, de propor uma fuga, de falar para ela o quanto eu estava a amando mais do que tudo. Tive vontade de gritar para o mundo o meu amor por aquela bela mulher. Versei enlouquecidamente naquela noite. E chorei a frieza da minha realidade.

Ao amanhacer, exausto e realizado com o prazer que tinha sido vê-la nua dormindo no meu quarto, preparei um café da manhã caprichado com tudo o que eu sabia que ela gostava, como um último mimo a essa menina que eu eu veria apenas uma vez daquele jeito. Servi o café na cama dela, acompanhado com alguns versos meus e o dinheiro devido. Ela comeu aquilo tudo, guardou meus versos e o dinheiro, disse-me para ficar bem e me cuidar e foi embora. Simplesmente foi embora como se nada tivesse acontecido.
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