A Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Poeta

Reluzia um vermelho intenso em meio aquela imensidão verde, de sons de pássaro e do chacoalhar das folhas. Estava eu, encostado numa castanheira de troncos frondosos pensando na vida e observando aquele estranho vermelho mover-se para lá e para cá em saltos de gazela. Aproximei-me para entender o que estava acontecendo e vi o céu. Era bela. Bela de uma forma tão forte que me tocou a alma e balançou as minhas estruturas físicas até ao ponto de quase desabar em seus pés. Mantive a postura. Tinha olhos azuis intensos, usava um bonito cachecol vermelho e possuía um rosto de traços finos e leves com um desenho labial que era uma verdadeira sacanagem comigo. Ô boca. O anjo que estava a minha frente carregava uma singela cesta adornada das orquídeas mais vivas que já vi. Senti vontade de aproximar-me e perguntar a sua graça. Mas me contive e fiquei ali. Interromper aquele momento seria uma vã tolice.

Não devia ter mais de um metro e setenta de altura e tinha um jeito de olhar e sorrir que me sufocavam. Faziam-me querer trocar tudo por ela. Continuava observando-a, seguia cada passo dela como se fosse a sua sombra. Pelos meus olhos negros eu a protegia de todo e qualquer mal que pudesse quebrar aquele momento de beleza ou pudesse de alguma forma afligir a minha princesa. Assobiava uma música que cadenciava o ritmo dos seus passos e que arrancava lágrima dos meus olhos. E eu a observava e pensava em tudo o que eu poderia fazer por ela e para ela. Era a minha princesa, o meu sonho de consumo, a minha poesia. Se eu pudesse, iria até a Lua só para tê-la.

Sentia que eu precisava recitar alguns versos que me saltavam a boca para ela. Precisava, ao menos, falar-lhe algumas palavras. Mesmo que isso me custasse alguns gaguejos. Tinha que encarar aqueles belos olhos e sentir a vertigem que provocaria o seu sorriso. Ensaiei uma aproximação. Decorei alguns versos. Tentei me aproximar. Hesitei. Meu coração saía pela boca. Enquanto isso ela caminhava, serelepe, em meio ao seu assovio melodioso até chegar a uma casa. Parecia esperar alguém. Disse a mim mesmo que seria a hora, o momento de me aproximar dela, falar com ela e, quem sabe, conquistar o seu pequeno coração. Caminhei até chegar perto dela, e disse:

- Observava-te em teu nobre caminho até esta localidade e pensei que talvez tu quiseste uma singela companhia – disse, num tom que saiu nobre e seguro como eu queria.

Ela olhou-me desconfiada e gritou:

- Vóóóó, tem um pedófilo aqui fora querendo me comer!

Olhei para os lados e de repente senti um baque na cabeça. Desmaiei. Quando acordei estava aqui, na cadeia, preso porque queria apenas recitar a ela uma singela poesia. Preso por ser apenas um lobo poeta.

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