São Paulo, O Lugar Comum

Na oficina de sábado (que, para o nosso prazer, foi mais um bate papo descontraído) com o jornalista Humberto Werneck, dentro da programação do Colóquio Rumos Jornalismo Cultural, promovido pelo Itaú, na capital paulista, o escritor e jornalista falou da importância e do cuidado extremo que nós devemos ter com os nossos textos. Em meio a várias boas dicas, Humberto falou uma que ouço desde quando me meti a escrever. Evitar o lugar comum.

Definir a minha estadia em São Paulo é, justamente, ignorar a dica dada por Humberto e por todos os professores de texto que tive. A melhor expressão para descrever a cidade é um lugar comum batido, mas que expressa de forma bem próxima o que eu vi por lá. São Paulo não para. É uma realidade que constatei em plena madrugada na capital paulista com estações de metrô lotadas, apesar do relógio marcar 4 horas da manhã. Segundo uma amiga do Rumos que morou por lá, a capital paulista é um excelente lugar para estudar o caos urbano dos grandes centros. Afinal, São Paulo é um caos urbano de pessoas insones. Aliás, pessoas é o que mais existe em São Paulo.

Nunca vi tanta gente junta na minha vida. Em todos os lugares que fui, com exceção da sala de cinema da Fundação Cásper Líbero em que vi o filme alemão A Vida dos Outros, todos os locais que visitei estavam abarrotados de gente. Na avenida paulista olhar para frente é deparar-se com um mar sem fim de pessoas e carros misturados, andando de um lado para o outro e, nas margens desse mar, prédios imensos e muito bonitos A maresia desse oceano paulista é uma fumaça transparente, leve, soltada pelas toneladas de gases tóxicos que são expelidos diariamente por ali. Uma visão surreal para quem não está acostumado. Andar na paulista, ouvindo o barulho de buzinas infernais (ô povo que gosta de buzinar heim) e tendo essa visão me fez entender porque tanta gente tem problemas de stress no Brasil.

Mas não é só de gente, carros e poluição que é feita a cidade de São Paulo. É de pizzarias também. Próximo do hotel em que eu ficava, num perímetro curto de 3 quadras, contei 4 pizzarias. Ou seja, mais de uma pizzaria por quadra. O interessante e bom disso é que a pizza lá é barata. Paguei 20 reais para comer uma pizza grande (lá eles não tem gigante) maravilhosa meia portuguesa, meia mussarela, com mais o refrigerante de 2 litros. Coisa impossível de acontecer em terras potiguares. Fora isso, havia uma variedade de sabores que me deixou boquiaberto. A grande maioria das pizzarias, pelo que percebi, usam forno a lenha e as pizzas são todas muito boas. Bem diferente daqui que paga-se absurdos por elas.

Outra peculiaridade é a boa educação do povo paulista. Fui bem atendido em todos os lugares em que estive. E, ao contrário do que eu pensava, o paulista não é frio. É um povo que gosta muito de conversar e de ser prestativo. Interessante isso, porque o perfil do natalense é diferente. É um povo mais frio, muitas vezes mal educado* que se interessa muito pela vida alheia, apesar de ser muito honesto e hospitaleiro. Em São Paulo você pode estar com uma melancia pendurada no pescoço que você não é olhado. Em Natal, basta uma roupa diferente para você ser taxado de isso ou aquilo. Por outro lado, ao voltar do hotel para o aeroporto, senti toda o conservadorismo paulistano quando, conversando sobre pedofilia com o taxista, ele afirmou indignado: "o que mais me deixa irritado com esses pedófilos é que eles querem comer os meninos. Se fosse as menininhas, vai lá, eu até entendia, tem umas que parecem mulher, mas não sei porque o interesse em (sic) comer o rabo de menino". Como se comer as menininhas diminuísse o absurdo e o terror que é a pedofilia.

São Paulo me impressionou também pela sua efervescência cultural. Cinema, teatro, dança, música, literatura, artes plásticas, arte urbana, arte mobile... Tudo o que se desejar e um pouco mais você encontra na capital paulista. Pena que o meu tempo livre por lá foi pequeno para aproveitar pelo menos parte do que a programação cultural que cidade podia me oferecer. Perdi a exposição de Yoko Ono que ocorria no Centro Cultural Banco do Brasil e a mostra do minuto que acontecia, salvo engano, no espaço Unibanco. Mas, ao menos, consegui ver um excelente filme, visitar uma feira de arte mobile muito interessante e curtir She Wants Revenge e Phoenix no Memorial da América Latina.

Nesse momento do texto me sinto, novamente, impelido a descumprir a regra do lugar comum para falar de São Paulo. A terra da garoa. Não há definição que se aproxime mais do que é o clima de lá como essa. Várias vezes, durante a tarde, ao caminhar pela paulista, fui surpreendido pela garoa paulistana. Parece que o clima de lá tem algum tipo de crise existencial, ou é mulher em TPM. Não sabe o que quer. Quando você menos espera, chuva. E chuva forte. O mesmo quanto a temperatura, o clima de lá não sabe se é quente ou frio. Pior que essa peculiaridade me pregou peças. Quando saí preparado para o frio, no sábado, pensando que sabia como funcionava a lógica climática da cidade, calor. Muito calor e pobre de mim que não tive tempo de voltar para o hotel e me trocar.

No geral, o saldo foi positivo. Gostei da cidade, apesar da loucura que deve ser morar e trabalhar lá. É óbvio que a minha simpática cidade provinciana em termos de qualidade de vida é bem melhor que a capital paulista. Mas a falta de oportunidades por aqui e, sobretudo, a falta de uma programação cultural mais diversificada, de investimentos nessa área (precisamos urgentemente de mais teatros) e a desvalorização do profissional do jornalismo, me fazem achar que talvez São Paulo seria um lugar interessante para viver. Não sei é algo a ser pensado. O que sei é que quebrei regras com esse texto, não foi Werneck? Desculpa, mas afinal, regras nasceram para serem quebradas.

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