Natal ainda é um paraíso?

Quando eu me mudei para Natal, há exatos 12 anos atrás, lembro-me bem dos motivos que fizeram minha mãe trocar a bela cidade de Campo Grande no Mato Grosso do Sul, por uma cidadezinha simpática, calourenta, localizada na ponta do nordeste, num estado com o formato de um elefante. E os motivos foram exatamente estes: As belas praias, a tranquilidade, o baixo custo de vida e o ar mais puro da américa latina.

Eu não compreendia muito bem, à época, o significado disso para a da qualidade de vida da minha família. Na verdade, eu queria mesmo era morar na secura de Brasília, cidade onde eu nasci e estava a maior parte dos meus tios, primos e etc... E cidade que já começava a apresentar os problemas urbanos comuns a grandes cidades do terceiro mundo, como a violência urbana e o alto custo de vida. Mas minha mãe insistira nesta mudança também por causa de um problema respiratório que o meu irmão recém nascido sofria.

Lembro bem quando cheguei em Natal, uma cidade que eu mal ouvira falar na escola até então. Morei inicialmente numa casinha lá na vila de Ponta Negra, bem próxima ao mar, alugada por temporada. Eu lembro de uma Natal vazia, tranquila, onde podíamos brincar na rua tranqüilamente e onde o nosso maior medo era se perder na vastidão da praia de Ponta Negra com as suas barracas à beira mar e o seu peixe frito na hora. Quando andávamos de carro, víamos uma cidade recheada de terrenos vazios, de casinhas pequenas, sem os grandes shoppings que tinham na capital federal ou grandes prédios. Um lugar realmente muito tranquilo e muito belo que cheirava a maresia.

Doze anos se passaram e muito do clima tranqüilo daqui foi embora. Natal hoje sofre com problemas sérios resultado do crescimento urbano desordenado. Um deles é a violência, este mês por exemplo, estamos com uma média de um assassinato por dia, fora os assaltos e roubos cada vez mais comuns. A polícia, ainda com uma estrutura de cidade de interior, sofre para tentar resolver os casos, mas muitos terminam sem solução. Hoje não é mais recomendável que se brinque, em certos horários, na rua, como era antigamente.

O crescimento vertical é um outro problema. Natal, em extensão, é uma cidade pequena e que não tem mais para onde crescer. Resultado, prédios, prédios e mais prédios imensos foram e estão sendo construídos o que está começando a impedir a circulação de ar na cidade e está transformando Natal numa grande ilha de calor. Como se não bastasse, estes prédios não são construídos para o povo natalense. O crescimento exponencial e desorganizado do turismo, sobretudo do turismo estrangeiro, está tirando a cada dia a cidade do seu povo e a transferindo para espanhóis, portugueses, holandeses... Os empreendimentos são direcionados aos estrangeiros e com preços altíssimos, impagáveis para a maior parte da população. E ainda, muitos deles não respeitam o nosso meio ambiente.

Em Pitangui, praia próxima da capital, por exemplo, existe um projeto de um grupo estrangeiro para a construção de um Mega Resort, com campos de golfes e tudo mais, em cima de uma duna, num local onde até um dia desses era proibido a construção de empreendimentos. E pasmem, meus colegas, o Mega Resort abrigará cerca de 160 mil estrangeiros (ele está sendo vendido na Europa), e o IDEMA, órgão responsável pelas licenças ambientais, deu legalidade a construção. O Ministério Público Federal entrou recentemente com um recurso na justiça para impedir que tal abuso contra a nossa natureza seja feito. Construção em cima de dunas acabam com a circulação de ar da cidade, contaminam os lençóis freáticos e podem acabar com a biodiversidade do local.

E o turismo desordenado está trazendo mais dois problemas sérios para a capital. O sexo turismo e o aumento absurdo do custo de vida. Em alguns locais, principalmente naqueles com maior número de turistas, os preços aumentaram de uma forma várias vezes superior ao aumento da renda do natalense. Além disso, nestes mesmos locais, houve um inchaço no número de prostitutas e travestis. E o pior, vê-se crianças também imersas no mundo da prostituição. Natal chegou a ser capa do jornal espanhol, El Mundo, intitulando a cidade de Europrostíbulo, tamanho é o problema da prostitução. Os órgãos públicos tentaram diminuir com uma campanha publicitária tímida, logo após a reportagem do El Mundo, mas hoje, quase dois anos depois da publicação, vemos a mesma situação, ou pior. O fato é que o lobby do sexo turismo, que movimenta milhões e milhões de euros por aqui é forte e dificilmente teremos uma solução para este problema.

Fora isso tudo, Natal ainda está sofrendo problemas de trânsito, resultado do grande número de carros e da péssima infra-estrutura de transportes. A população aqui quase dobrou nos últimos 10 anos, saímos de 400 mil para 800 mil habitantes e a estimativa é que daqui a alguns anos Natal se torne uma metrópole. A infra-estrutura de estradas não seguiu este aumento da população e ainda tem um agravante, o natalense gosta de comprar carro, é algo cultural aqui. É comum ver gente cheio de dívidas, com casas pequenas, mas com o carro do ano, ou famílias em que cada membro tem o seu veículo próprio. Resultado, além do trânsito péssimo, a poluição. Não sei se ainda temos o ar mais puro da América Latina, acho bem provável que não.

O que nos resta ainda são as belas praias. Mas não as de Natal, lotadas de turistas e de hotéis imensos, mas as do interior, ainda marcadas por uma tranquilidade e uma beleza sem igual e ainda com aquele resquício paradísiaco de tranquilidade que habitava antigamente por aqui. É uma pena presenciar este crescimento desordenado que está causando tantos problemas a simpática cidade que é Natal. E talvez, daqui a alguns anos, nem simpática mais seremos, mas sim uma cidade sisuda, feia e fedorenta, sem nada do que era o paraíso de antigamente, o paraíso da cidade que vim morar.

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