O jornalismo que forma

A primeira vez que tive contato com Gabriel Garcia Marquez foi na blogosfera. Li, no falecido e-digitais o conto "Avião da Bela Adormecida" e foi amor à primeira vista. Meu segundo contato foi com uma notícia dizendo que ele acabava de lançar "Memórias das Minhas Putas Tristes". Corri para livraria e comprei o livro. Depois li quase tudo o que ele havia escrito. Hoje considero o colombiano o meu autor preferido.

Eu comecei a me interessar por literatura e jornalismo cultural, quando eu tinha dez anos e estava em Brasilia. Na casa do meu pai tive contato com a edição de domingo do jornal "Correio Brasiliense". Folhando aquele objeto estranho, encontro um caderno mais estilizado. Batata. Toda vez que eu abria um jornal, procurava esse caderno e sempre o lia.

Foi assim que conheci os grupos de teatro de Natal. Era dessa forma que iria procurar o filme que ia assistir. Lendo o jornal, comecei a querer escrever igual. Para isso, comecei a ler. Primeiro Harry Potter e Senhor dos Anéis. Depois Machado de Assis e Graciliano Ramos (nesse meio tempo passei a me interessar por rock também). Não sou de uma família que cultiva o hábito de leitura. Os livros que minha mãe tem eram todos religiosos. E ela não lia. Não convivi com meu pai. Com exceção da minha avó e de um tio distante, ninguém da minha família lia.

Tive a mesma educação que meu irmão teve. Ele não se interessa por literatura, nem por jornalismo. Posso dizer hoje que fui (e ainda sou) 'formado' culturalmente pelo jornalismo cultural. Por meio do jornalismo, conheci a maior parte dos livros, das bandas e dos filmes que gosto hoje. A partir das revistas que leio e dos blogs que visito, eu escolho qual filme assistir ou que livro vou ler. Ainda me formo culturalmente pelo jornalismo. Infelizmente os jornais natalenses hoje em dia não têm mais opinião. São feitos a base de releases enviados diretamente pela assessoria de grupos culturais. Ele não forma e nem informa ninguém. É um jornalismo acomodado.

Formar não é ensinar a ler. É mostrar para o leitor que existe produção cultural, é instigar o leitor a pensar sobre determinada obra de arte, sobre determinado filme. É fazê-lo ver que ir ao teatro é bom, que ler um bom livro nos engrandece. É escrever com segurança, clareza e inteligência suficiente para conquistar o leitor e fazer com que ele, ao menos, procure a editoria de novo. Mesmo ele não gostando de leitura. Um texto bem escrito seduz. O jornalismo cultural tem esse poder. Pena que uma série de 'escribas' acreditam que a linguagem e o objetivo dessa editoria é para escrever apenas para os 'cults'. Pena.

O jornalismo, sobretudo o cultural, tem a sua função na educação. O jornalismo atinge a massa, cria opinião. Fazer jornalismo é também informar o leitor que Machado de Assis é o maior romancista brasileiro, ou que Chico Buarque também pode ser um grande escritor. É mostrar para o leitor que existe qualidade no cinema brasileiro atual. É, sobretudo, instigar a curiosidade do leitor. A partir da curiosidade, ele poderá alçar novos vôos. Grande parte da "falta de cultura" do povo é culpa da mídia. Ela não instiga. Não faz pensar. Repete a agenda cultural. Não é a toa que os jornais hoje vendem pouco. Eles não são mais instigantes como antigamente e, besteira por besteira, muita gente prefere ficar na frente da TV. É mais fácil.

Os potiguares talvez participariam mais da cultura local, se os meios de comunicação ressaltassem que aqui temos um grupo de teatro premiado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Um dos mais importantes prêmios do país. Ou que temos um escritor do quilate de Nei Leandro de Castro. Dizer que temos grandes músicos potiguares, também não é pecado. O problema é que há um ciclo vicioso, os ditos jornalistas culturais da cidade acham que o povo não se interessa por cultura e continuam escrevendo apenas para o seu grupinho. Os empresários pensam da mesma forma e insistem em continuar a rotina de publicação de releases nos cadernos de cultura. E o povo continua desinformado e sendo chamado de idiota por 'cults' e empresários.

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