O Sorriso

Os cabelos dela paralisados no ar, o perfeito contraste entre o verde do seu vestido e o tom pastel da sua pele, os olhos fechados, o mundo acabando... Vi a fotografia quando a observava dançar. Era linda dançando. Parecia que o universo todo se esgotava dentro dos seus passos. Me senti vivo vendo aquilo. Desejei ela para o resto da minha vida. Desejei morrer vendo-a sorrir. Desejei estar para sempre ao lado dela. Pena que não estava com a máquina fotográfica para registrar aquele belo momento. Pena.

Eu a conheci quando minha vida tomava o rumo em meio a putas e goles incessantes de álcool. Escrevia meus versos e andava sem rumo em frias e escuras noites. Ela usava um vestido preto, um par de óculos de grau e seus cabelos loiros caiam na altura do ombro. Olhos grandes de quem tem muito o que contar, tinha por volta dos 1,60m e uma bela fisionomia. Não era a mulher mais bonita do mundo. Nem a mais bonita entre as que me relacionei. Quando ela se aproximou para pedir um cigarro, senti que havia algo nela de estranho. O sorriso.

Ao olhar para ela pela primeira vez, tive o cuidado de guardar na minha memória cada vão espaço do seu rosto. Quando eu cheguei no sorriso, me arrepiei. Tremi. Era algo de outro mundo. Aquele minúsculo espaço de tempo em que os lábios se alongavam e os olhos diminuíam gerou em mim uma montanha-russa de sensações, que iam desder os calafrios, até alucinações visuais. Me vi chapado, tonto, desorientado com a força daqueles lábios se abrindo.

Notei que ela percebeu o meu fascínio. Ela me olhou, analisou meu estado deprimente com pena. Enquanto que nesse breve momento de silêncio, uma centena de frases, palavras, versos, músicas, passaram pela minha cabeça. Com a voz ainda trêmula, só consegui perguntar "vo-você vem semp-pre a-aqui?". Ela riu. O meu corpo, que já começava a ter indícios de abstinência, teve o prazer de mais uma boa dose do seu sorriso. Ela respondeu "não, é a primeira vez...". Ainda zonzo, só consegui pronunciar o meu nome. O dela era 'Fernanda'. Mas eu podia chama-la de Fê.

Fê, Fê, Fê. O nome ecoou na minha cabeça. Atriz, ah, eu também fui ator. Livros. Poesia, não, não, para mim quem manda é Leminski. "É matéria prima que se transforma em raiva ou em rima". Risos. Enquanto falávamos e ela sorria, meu corpo era tomado por uma sensação de prazer única. Uma sensação que vinha daquele sutil apertar dos olhos, daquela energia amarela que emanava do seu rosto, daquele cheiro de outono da sua pele pastel. Sentia de repente que meu coração pararia caso ela fosse embora. Queria uma overdose daquilo, vê-la sorrir a cada momento da minha vida, a cada instante, a cada segundo. Virou uma obsessão que tomava conta de cada célula do meu corpo. Eu não podia ficar mais sem aquele sorriso.

Trocamos telefones, emails, mensagens. Ela se foi e senti que roubaram um pedaço de dentro de mim. O tempo passou. Quase não nos falamos. A cada dia que eu passava longe dela, essa sensação de vazio aumentava. Eu adoecia, fraquejava. Precisava urgentemente de mais uma dose do sorriso dela. Pior que eu não sabia como explicar isso. "Alô, estou viciado no seu sorriso, estou morrendo sem ele, por favor me procure". Não, soaria piegas demais. Não tive coragem. Passei a beber mais, a me drogar mais, para ver se os efeitos fariam bem ao meu corpo. Nada. Eu emagrecia, minha pele amarelava, meus olhos, afundavam. Era um defunto vivo. Não conseguia mais viver.

Foram três semanas de martírio, até que a encontrei dançando. Era uma casa de shows escura, com luzes que piscavam irritantemente e que tocava um ritmo parecido com funk. Ela estava de vestido verde. Como alguém podia ficar tão bonita de vestido... O mundo estava sob os seus pés. Tive vergonha de me aproximar naquele estado. Sentia que a sua presença revigorava meus sentidos de uma forma estranha. Ela dançava como se nada existisse. Dançava, dançava e dançava. E só eu parecia notar aquela beleza, aquela cena que compunha uma imagem perfeita. Me esforçei para gravá-la em todos os seus detalhes. Eu estava fascinado.

Ela se aproximou de mim suada. Dava para sentir o seu cheiro evaporar de cada um dos poros do seu corpo. Sua presença iluminava tudo o que havia próximo de mim. Deu-me dois beijos no rosto. Falou do balé e do teatro. Lançou outro daqueles seus sorrisos. Não agüentei. Não resisti. Chamei-a num canto e falei. Falei que não conseguia mais viver sem o seu sorriso. Falei que meu corpo padeceria sem a sua presença. Falei que sem o seu olhar, morreria. Ela não acreditou. Se ofendeu, até. Me chamou de cafajeste. Falou que não caia naquela conversa para boi dormir. Falou que conhecia muito bem o meu tipo. Mandou que eu não mais a procurasse. Ela não me entendeu. Foi embora.

Não mais a vi. No desespero, procurei-a. Liguei várias vezes para ela. Deixei mensagens. Falei que ela estava me matando. Ela não respondia. Aliás, respondeu apenas uma vez, para pedir que eu não mais a incomodasse. Emagreci. Perdi 20 kg. 40 kg. Fui internado. Estou internado. Ninguém sabe o que tenho. Tentei explicar. É o sorriso dela doutor, é o sorriso dela. Ninguém me entendeu.

*revisado

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