O fordismo cultural


O sistema capitalista levou a produção cultural disposições técnicas tão avançadas que dificilmente outro sistema conseguiria fazer o mesmo. Graças ao capitalismo, músicos, atores e artistas em geral, quando financiados, dispõem de recursos capazes de lhes fornecer o melhor existente em tecnologia para a produção daqueles artigos. Porém, para que haja esse dinheiro, faz-se necessário seguir a risca a lógica de mercado inerente à ideologia capitalista, ou seja, é preciso ter lucro.

Fazer música, produzir teatro (hoje, a televisão) e até mesmo escrever livros, deixou de ser ações frutos de uma manifestação cultural de um povo e passaram a se tornar fenômenos de massa. O desenvolvimento capitalista, aliado ao desenvolvimento dos meios de comunicação de massa conseguiram fazer com que a produção cultural seguisse uma determinada fórmula que, sempre que aplicada, venderia e daria lucro. A partir de então, formou-se as grandes indústrias de produção cultural, como a indústria fonográfica e a televisiva, responsáveis por aplicar tais fórmulas e garantir o lucro dos seus financiadores.

Para conseguir emplacar uma fórmula, a indústria midiática precisou crescer e atingir os pontos mais distantes do globo, a fim de homogeneizar gostos e costumes e impor, aos menos desenvolvidos, uma cultura única, destinada somente ao consumo. Uma forma cultural que tem no seu seio a ideologia capitalista do lucro e do consumo a qualquer custo, mesmo que isso comprometa os meios naturais e a produção cultural local do povo. É uma forma cultural que come todas as outras que estão na sua frente e que esta deixando um legado de idiotas formados por ela (ver Idiocracy). Idiotas que só pensam em consumir. Ao conseguir emplacar em todos os lugares do planeta, a mídia então passou a vincular certos valores ligados ao prazer a certos tipos de música. No caso do Brasil, isso significou o nascimento do Axé e a massificação do Pagode e do Samba. A publicidade, os programas de televisão e os produtores começaram a ligar esse tipo de música à apelos de prazer sexual e fazer destes grandes fenômenos de venda.

Para conseguir esses grandes fenômenos de venda, foi preciso também criar músicas fáceis, de preferências com letras que não proponham uma reflexão sobre si mesmo, mas que incitem o ouvinte a cantar junto. Daí observa a grande quantidade de refrões vocalizados nesse tipo de música e incessantes, para entrar na cabeça do consumidor. A indústria musical não parou apenas nos ritmos que atingiam pessoas mais velhas, como o pagode e o samba, mas também entrou na produção musical dos jovens. A partir daí vieram bandas de rock que faziam o mesmo som, com as mesmas sequências musicais e propagavam a mesma anti-ideologia idiota que no final das contas não dava em nada. A agregação disso com a indústria de telenovelas, produziu seriados como a Malhação, destinados a impor aos jovens uma forma homogênea de se vestir, de falar e de ouvir a mesma música. Tudo isso ligando os valores a formas de prazeres.

O problema disso tudo é que essa forma de cultura não preza pelo crescimento intelectual das pessoas as quais alcança. Ela está aí para manter uma ideologia vigente por meio de uma massificação que faz com que as pessoas percam a sua identidade cultural e se tornem apenas um robô, sujeito as orientações daquilo que vêem. Além disso, essa ideologia veiculada prega valores de individualismo que são venenosos para a sociedade, afinal, como um grupo de indivíduos vai conseguir viver bem se todos são por demais egoístas? Acontecerá que uns, menos sortudos, viverão à margem da sociedade e começarão a atacá-la. Daí os roubos, os assassinatos, o tráfico de drogas e as mazelas sociais que todos os dias estamos acostumados a ver.

A solução disso não está na imposição de um regime ditatorial do proletário. Nem muito menos na estadização de todos os meios sociais. Mas sim numa convivência de troca cultural entre a mídia e a sociedade, numa forma de comunicação que respeite o receptor e faça com que ele também possa ser o emissor daquilo que produz. É necessário a democratização dos meios de comunicação para que uma cultura, tão letal como essa, não seja dispersada na sociedade e resulte no caos social. Seja este caos produzido pela violência dos marginalizados, ou pela repressão governamental. É necessário que a construção disso não seja apenas uma iniciativa da mídia, mas também do governo por meio de políticas sociais de inclusão do cidadão menos favorecido. Não podemos esquecer também da iniciativa privada e das organizações não governamentais nisso tudo. Se todos juntos trabalharem para a manutenção da cultura de um povo e para o seu engrandecimento intelectual e também da sua consciência ambiental, com toda a certeza, viveríamos em um mundo melhor.

1 comentários:

Carlos Eduardo do Nascimento Gomes said...

Gostei muito desta reflexão.
Sabe onde posso encontrar mais material a respeito deste tema?

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