O Destino de João


João tinha doze anos e meio, como costumava informar, ao ser indagado sobre a idade. Era um menino franzino, pobre, de cor morena e olhos de mel. Jogava futebol todos os dias no velho campo de terra batida da sua comunidade e depois corria para almoçar a boa comida de sua mãe, mas que nem sempre era servida por causa do danado do dinheiro. Depois disso passava a tarde com crianças menores, porque mãe nunca deixava andar com os meninos mais velhos. Dizia ela, que eles faziam coisas esquisitas e só arranjavam problemas.

João queria ser médico. Aliás, não queria apenas ser médico, afirmava sempre que iria ser médico. Era um menino estudioso, o orgulho da sua família. Sua mãe não sabia quem esse menino puxou, afinal, seu pai era um alcoólatra e ela mal tinha terminado a terceira série. O menino já estava na sétima série, um ano adiantado e sempre voltava para casa com as melhores notas e elogios dos professores. Em casa, quando ficava com as crianças menores, tratava delas sempre com dedicação e afinco, principalmente quando elas se machucavam ou ficavam doentes. João era fascinado pela idéia de poder curar as pessoas com aquela água esquisita de gosto ruim que chamavam de remédio. João queria ter esse poder e estudava para isso.

Ao voltar para casa, numa sexta-feira, João encontrou sua mãe aos prantos. Ela disse a ele que não tinham mais o que comer e que se ele não trabalhasse na rua, limpando o vidro dos carros e arranjando uns trocados, os dois morreriam de fome, porque o dinheiro que tinham só pagava a comida das duas crianças menores, irmãos mais novos de João. O menino nunca havia trabalhado na vida e a sua mãe, sempre que pôde, não o deixava trabalhar. Sempre dizia e repetia a ele a importância do estudo, mas a situação era tão crítica que não tinham mais saídas, João teria que se aventurar nas ruas.

No primeiro dia, João sentiu-se humilhado. Via aqueles carrões que fechavam, friamente, a janela de seus veículos quando o viam se aproximar. Encarava os olhares de pena e de medo das pessoas que o tratava como se fosse um pobre coitado naquele sinal com o seu balde de água com sabão. Via-se diminuto ao receber aquela pequena quantia pelo risco e pela humilhação que era limpar os vidros dos carros, logo ele, tão inteligente. Sentiu-se pequeno naquele imenso mundo. Abobalhado naquela sensação, não percebeu a fome se aproximar sorrateira e cruel do seu corpo. A fome o abalou tanto que percebia a fraqueza dos seus músculos e o salivar da sua boca. Havia se passado dois dias depois daquela sexta-feira e, desde então, comera apenas alguns restos de pão e um copo de leite. Eram três da tarde, João, em meio aquela multidão, aqueles carros e a sua fraqueza, enxergou ao longe, com o seu olhar, já turvo pela fome, um salgado numa banca de jornal.

Aproximou-se secretamente da banca e, da forma mais rápida que os seus músculos lhe permitiram, surrupiou aquela coxinha. Sabia que estava roubando, sabia que, o que estava fazendo era errado e que a sua mãe iria matá-lo por isso. Mas a fome era maior que ele. Quando, então, foi dar a primeira dentada naquela coxinha de frango, ouviu gritos, gente correndo, pessoas gritando "ladrão!", "ladrão!". Não correu, ficou parado, atônito no meio daquela zorra. De repente, olhou para trás, e viu dois policiais tirando-lhe a coxinha e algemando-lhe. Não sabia o que fazer, sua mente estava confusa e o olhar turvo pela fome que ainda o consumia. Esses policias levaram João para um beco escuro, próximo ao sinal onde ele mendigava. Bateram-lhe de uma forma que João jamais havia apanhado. O menino apenas sentia o sangue escorrer pelas suas narinas enquanto os policias levavam-no para a delegacia. Ao chegar lá, limparam-lhe os sangramentos, entraram em contato com a sua mãe e avisaram-na do acontecido. A mãe quase não acreditou, foi à delegacia e viu seu filho com o olhar baixo e algemado. Perguntou a ele o porquê disso e ele lhe contou a história. A mãe chorou.

O delegado falou que ele iria ficar preso, porque já tinha doze anos e era responsável pelos seus atos. Mandou a mãe procurar um advogado. Mãe conseguiu apenas um defensor público, que se dispôs a ajudar na causa. João ficou preso por seis meses, quando foi julgado. As provas eram concretas. Furto qualificado. João pegou mais dois anos de prisão. Na cadeia João apanhava e aprendia com as outras pessoas a bater. Na cadeia, o menino começou a fumar, primeiro cigarro que seu amigo de cela havia lhe emprestado e depois outras coisas que faziam com que aquilo tudo ficasse mais fácil de ser superado. João só não entendia porque estava ali.

Os seus olhos de mel, fecharam-se para sempre aos dezessete anos, quando ele, com a sua quadrilha de traficantes, entrou em confronto com a polícia. Seu par de olhos apenas nunca entendeu porque tinha visto tantas atrocidades se a única coisa que eles queriam era curar e a única coisa que ele sentiu foi fome.

Aos nossos deputados, por favor não permitam esse destino às nossas crianças de rua, tão sonhadoras e tão pobres. Violência não vai se resolver com mais violência, é preciso investimentos sociais, é preciso melhoria nas cadeias, preparo e melhor remuneração para os políciais, é preciso mudar o nosso judiciário e, sobretudo, é preciso cuidar do nosso futuro, para que nenhum outro João ou João Hélio tenha o seu destino com o desfecho tão cruel, como ambos tiveram.

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