Os cães tarantinianos


Em 1984, o magricela Quentin Tarantino era um viciado em cinema que trabalhava como balconista numa locadora de filmes, estudava atuação e tinha acabado de terminar de escrever seu primeiro roteiro. Onze anos depois o mesmo magricela era considerado um dos melhores diretores norte-americanos da atualidade e acabava de ganhar um dos maiores prêmios do cinema mundial: a Palma de Ouro de Cannes.

Entre os tempos de balconista até ser considerado gênio do cinema, Tarantino roteirizou e dirigiu três filmes. O primeiro "My Best Friend's Birthday" foi a conseqüência direta do seu primeiro roteiro e da sua parceria com Craig Hamann, seu amigo na locadora. Reservoir Dogs (Cães de Aluguel) foi a sua maturidade cinematográfica, a produção foi chocante tanto pela violência das cenas, quanto pela qualidade do roteiro. Pulp Fiction, lançado em 1994, foi o ápice de Tarantino. O longa recebeu indicações para prêmios no mundo todo, levou nada mais nada menos que a Palma de Ouro em 95 e conquistou uma legião de fãs.

Para chegar até Pulp Fiction e contar com atores do quilate de Samuel L. Jackson, Uma Thurman, John Travolta e Bruce Willis no elenco, nosso querido magricela precisava de prestígio. E nada melhor do que Cães de Aluguel como cartão de visitas para chegar aonde ele chegou. O filme é excelente. Mal temos tempo de nos acomodar na poltrona para assisti-lo e contamos com uma cena em que a câmera filma cada um dos personagens do filme num café discutindo assuntos como a letra de "Like a Virgin' de Madonna, as condições sócio-econômicas das garçonetes e a questão das gorjetas. E o melhor: de forma bem humorada.

A abertura é só a preparação para um filme que, antes de tudo, pode ser definido como inteligente. São seis criminosos que não se conhecem e usam codinomes para se identificar. O objetivo deles é roubar diamantes de uma joalheria e entregá-los para o seu recrutador: Joe, um bandido rico e experiente. Acontece que antes deles conseguirem fugir, a polícia chega. No filme, não se vê a cena do roubo, ela é costurada por meio da história de cada personagem, a história do filme começa depois do roubo e o eixo narrativo gira em torno da desconfiança: um dos seis bandidos era policial e entregou o esquema, por isso a polícia chegou tão cedo.

A descrição da história pode parecer comum ao cinema policial norte-americano. O grande 'quê' do filmes de Tarantino é a forma com que ele trata a violência: sempre nua e crua, recheada de sarcasmo e de referências à cultura pop. Isso fica claro na escolha que vai desde a trilha-sonora (muito boas em geral) até aos planos da câmera e as palhetas de cor escolhidas na pós produção. Além disso, o diretor é mestre em quebrar expectativas; quem já viu algum filme dele sabe. A violência tarantinana é mostrada sempre de forma cômica, recheada de diálogos inteligentes em que os personagens discutem tudo, seja os sanduíches do Mc Donalds, seja composições de Bob Dylan. E a caracterização dos seus personagens é genial: sempre um contraste entre as suas ações e a forma com que são mostrados.

Cães de Aluguel inaugura com maestria esse estilo tarantiniano de fazer cinema e essa forma politicamente incorreta de tratar da violência, sem se limitar a ser um filme daqueles de ‘violência pela violência’. A firmeza da direção, as boas atuações e, principalmente, a qualidade da história do longa-metragem são belos convites para o mundo do nosso querido diretor magricela, que anos antes não passava apenas de um empregado de locadora. A produção só não se tornou a maior obra-prima de Tarantino porque, anos depois, ele viria a roteirizar dirigir e atuar Pulp Fiction, a consagração do seu estilo.

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