A Menina que Pedia Livros

Estava no carro, dirigindo, um pouco atrasado para o curso de inglês, quando, ao parar no sinal, fui abordado por uma garota que queria limpar os vidros do meu carro. Acostumado com esse tipo de abordagem nos sinais daqui, falei que não precisava, esboçando um sorriso amarelo. Ela, insistente, pediu que lhe desse ao menos 10 centavos. É óbvio que eu tinha 10 centavos na carteira, mas tirar o cinto de segurança, colocar o carro em ponto morto, abrir a carteira, e tirar 10 centavos, levaria tempo demais e demandaria um esforço que a minha eterna preguiça de ser, inviabilizava. Era mais fácil falar que não tinha, assim o fiz. A menina então, com um jeito meio timido, pediu para que eu lhe desse pelo menos 'um livro daqueles pra mim ler em casa". Não soube como reagir. Olhei para o lado, no banco do passageiro estavam os meus livros de inglês. Falei isso pra ela, então, triste se afastou. Nem teve tempo de ouvir eu falar que se fosse de literatura, daria com o maior prazer.

Isso me fez pensar. Nunca esperararia tal atitude da menina de rua de olhos tristes que queria limpar o parabrisa do meu carro. O lado mais cético do meu ser chegou a pensar que ela, talvez, quisesse o livro para vender. Mas, mesmo assim, o intervalo entre o ganhar o livro e o vender o livro seria o suficiente para, despertar nela, e talvez em seus companheiros, uma curiosidade mínima de abri-lo e tentar ler, ao menos, o primeiro parágrafo da história. E quem sabe o primeiro parágrafo da história não a levasse ao segundo? E depois ao terceiro? E depois ao livro todo? Livros bons são assim, causam dependência psicológica. Não se consegue ler uma página sem querer ler a segunda, nem a terceira, nem a quarta. Pensei também quanto ao dever do poder público de disponibilizar obras, pelo menos as essenciais, para a sociedade. Sobretudo, às pessoas pobres. A literatura alimenta a alma. Mas, enfim, essa questão do poder público nem é tão legal de discutir. Desanima. Amanhã vou procurar uma obra infanto-juvenil boa que estiver encostada na minha estante de livros e darei para algum desses meninos (ou meninas) que me abordarem no trânsito. Pelo menos, ficarei com a consciência menos pesada de não ter nenhum livro bom no momento para presentiar a garota.

Apesar do desânimo do poder público quanto ao incentivo a leitura de pessoas carentes. Pelo menos algo de bom ele está realizando aqui em Natal. E esse algo é o II Encontro Natalense de Escritores que vai acontecer do dia 22 ao 24 de Novembro, na rua Chile, Ribeira. Com painéis muito bons e com muita gente boa discutindo. Fazer esse tipo de evento é bom para a literatura natalense. Incentiva novos escritores, forma novos leitores, movimenta culturalmente a nossa cidade, tão desmovimentada. Gente como Veríssimo, Zuenir Ventura, Carlos Heitor Cony, dentre tantos outros, com toda certeza trará frutos bons. A idéia é muito boa. Mas como nem tudo são flores, prevejo, infelizmente, painéis esvaziados. O incentivo por parte de campanhas e de divulgação é muito pequeno ainda. Sobretudo nas regiões carentes. Existe pessoa pobre que gosta de literatura e talvez não saiba disso. Incentivar a ida desse público para um evento como esse é mais que o essencial. E não só a ida para o encontro, como a leitura de boas obras. Aquele papo de que brasileiro não gosta de ler é furada. Não incentivam a leitura do brasileiro. E o que acontece: a menina que talvez tivesse lido um livro no colégio, que gostava de escutar histórias e que era pobre demais para consumir literatura e que precisava limpar parabrisas no sinal para garantir um mínimo de dignidade da vida, precisa pedir "um livro daqueles pra mim ler em casa", enquanto muita gente enche a boca pra dizer que brasileiro não gosta de ler. Revoltante.

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