Produtores independentes resgatam o imaginário nordestino


A arte de fazer rir. Essa é a temática do primeiro documentário do Projeto Vernáculo, realizado pela Fotogramas Cultura e Mídia, produtora cultural formada pelas recém formadas em Rádio e TV, Ianne Maria, Rita Machado e Cleidiane Vila Nova. O Projeto Vernáculo é patrocinado pelo Banco do Nordeste e consiste na criação de cinco vídeos-documentários sobre Cultura Popular do Rio Grande do Norte, o primeiro deles foi o A Gente Se Ri.

O documentário produzido pelo Fotogramas mostra uma das formas mais antigas de se fazer teatro e como ela foi adaptada para a cultura popular nordestina; o teatro de bonecos. Denominado de várias formas diferentes, dependendo do Estado em que esteja o Mamulengo (para os pernambucanos) é um resquício vivo da cultura oral nordestina e uma das formas que o homem pobre do interior do nordeste via de “cano de escape” para satirizar os seus “opressores” segundo a radialista e uma das produtoras do projeto Ianne Maria.

O vídeo alterna depoimentos de seis mamulengueiros de municípios diferentes do Rio Grande do Norte e mostra, a partir daí, como é feito o João Redondo (para os potiguares), desde a confecção dos bonecos de madeira até a elaboração da história e dos personagens. De forma descontraída, os artistas contam as suas histórias e “brincam” arrancando risadas do telespectador que acompanha o documentário.

Entre os entrevistados pela equipe do Fotogramas, está Josivan de Chico Daniel, filho e um dos maiores mestres de João Redondo do país, o potiguar Chico Daniel, falecido em abril desse ano. E também a Dona Dadi, uma mamulengueira de Carnaúba dos Dantas que enfrentou os preconceitos e as dificuldades de ser mulher em nome da vontade de brincar e de fazer essa arte.

Além disso, o vídeo conta também com um trecho de uma entrevista que a equipe do Fotogramas fez com Chico Daniel, pouco antes dele morrer em que ele fala da hereditariedade e da tradição que tem o João Redondo na sua família.

Para a elaboração do documentário foram entrevistados 10 mamulengueiros de 6 munícipios diferentes do Rio Grande do Norte, num período de 6 meses de pesquisa e produção do material. A primeira exibição do vídeo foi na segunda metade de junho desse ano como trabalho de conclusão de curso de radialismo da UFRN. O lançamento oficial foi no dia 8 de agosto de 2007 no Teatro da Cultura Popular em Natal com a presença de alguns mamulengueiros entrevistados além de um coquetel de comida regional.

O teatro de bonecos no nordeste

Segundo os pesquisadores, o teatro de bonecos chegou ao Brasil junto com os jesuítas e como um das formas que eles usavam de catequização. A temática era sempre religiosa e relacionada com passagens bíblicas.

Com o passar do tempo os escravos e os camponeses foram absorvendo essa forma de fazer teatro e passaram a utilizar elementos do seu cotidiano e da sua própria cultura, como as lendas populares, as estórias de cavaleiros e as brincadeiras características do homem do interior. Além disso, houve uma forte influência do “Comedia Dell’Arte“ originário da Itália que apresenta um tipo de personagem velhaco, fanfarrão, contraditório e explosivo, uma das características dos personagens do Calunga (para os paraibanos). A junção desses elementos e a criação de um tipo de narrativa em que o homem do interior se vê desde o linguajar dos personagens, até as situações características do Mamulengo, criaram uma forma de arte divertida em que o sertanejo muitas vezes satiriza as situações de opressão ao qual ele é submetido.

Essa forma de arte foi bastante difundida, principalmente no nordeste e no interior de Minas Gerais. Há registros também da presença dela em São Paulo e no Rio de Janeiro, sob a denominação de João Minhoca. No nordeste as apresentações de João Redondo ocorriam entre as festas religiosas e movimentavam as cidades em que acontecia.

Chico Daniel, o grande bonequeiro

Uma das maiores referências em João Redondo do país foi Chico Daniel, falecido no dia 3 de março desse ano. Natural de Assu, interior do Rio Grande do Norte, Chico Daniel era sapateiro e fazia alegria no interior do Estado com as suas apresentações, sempre regadas à criatividade e a bom-humor. O “bonequeiro” morava em Felipe Camarão, bairro da periferia de Natal e morreu de ataque cardíaco minutos antes de sair para mais uma das suas apresentações.

Chico Daniel deixou um legado de amor à cultura popular e de filhos que, como ele, também se dedicam a arte de brincar, a arte de fazer rir. O bonequeiro morreu aos 63 anos de idade.

Trechos do Documentário


Essa foi a reportagem foi a que me rendeu a seleção no concurso do Itaú de Jornalismo. Cultural

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