A Bela Adormecida

Eu a admirava fazia alguns meses. Cabelo avermelhado, altura mediana, olhos castanhos, boca carnuda e aquele jeito de andar e de olhar que me tiravam do sério. Ela sabia muito bem da minha admiração física por ela. Não tinha como esconder isso dela. Era a mulher mais bonita que eu já havia visto e, como bom poeta, sempre acreditei que o que talvez seja uma das melhores coisas que a natureza fez, uma das mais esplendorosas, é a beleza e a sutileza de uma mulher.

As mulheres tem um jeito único e uma forma de beleza que até nas mais feias se encontra. É impressionante a perfeição da obra que é o ser feminino. E as mais belas então... É pura covardia com os homens como eu que são obrigados a passar o resto da suas vidas a admirar essas belas mulheres. E por ela, eu passaria o resto da minha existência apenas admirando-a no seu andar, no seu falar e no seu pensar-em-nada tão belo, tão sutil, tão poético. E, naquele dia, eu não aguentava o tamanho prazer de vê-la, nua, dormindo na minha frente.

Dormir nua. Foi essa proposta que lhe fiz no dia anterior. Falei que pagava a quantia que quisesse apenas para admirá-la dormindo nua, do meu lado, no meu apartamento. Vi quando seus belos lábios riram da minha proposta senil, vi o quanto o seu belo par de olhos dobraram quando falei que não era loucura minha e que aquilo era mais sério do que nunca. Ela virou o rosto fazendo com que o seus longos fios cabelo batessem levemente no meu rosto e soltando um cheiro de rosas. Sorriu e perguntou-me novamente acerca da minha proposta. Confirmei as minhas intenções e as reforçei dizendo que sabia muito bem que nunca a teria como mulher.

Mulheres desse tipo não são para canalhas como eu. Eu sabia muito bem disso e não estava disposto a querer provar isso para ela. Até porque ela namorava com um rapaz qualquer, aliás, qualquer não, um sortudo. Quando a conheci e descobri esse pequeno detalhe, vi que ela não era para mim. Namorava já a mais de 5 anos e pensava-se em casar-se com o felizardo. Um homem comum, sem nenhuma poesia dentro de si. Isso, francamente, decepcionou-me quanto a ela. Escolher alguém assim, tão pobre de lirismo, tão comum, tão normal e tão chato no seu modo de agir fez-me ver que com ela, muito provavelmente, eu não teria nada, além da sua amizade.

Ela então contou-me que precisava de um quantia não muito grande de dinheiro para ajudar a sua avó. Contou-me que estava desesperada por esse dinheiro pois havia perdido o emprego e não queria pedir isso ao namorado que ganhava pouco. Achei o valor justo. Mas antes de fecharmos ela certificou-se de que eu não a tocaria em momento algum e que ficaria apenas a observando dormir. Dei a minha palavra quanto a isso, não queria estragar o momento. Marcamos então para o dia seguinte. No meu apartamento, às 21.

Ela veio. Nunca esquecerei o modo com que entrou no meu apartamento e olhou tudo aquilo. A risada, como se não acreditasse na minha proposta louca e na loucura que estava fazendo. Refez as suas exigências de que eu não a tocasse em nenhuma instância. Reafirmei tudo aquilo que tinha dito no dia anterior. E ela me disse que aquilo tudo deveria ficar apenas entre eu e ela. Ela falou que amava demais o seu namorado e não conseguiria se imaginar sem ele. Eu, conformado com aquilo tudo, arrumei a cama do melhor modo possível. Ela despiu-se e eu pude ver a poesia do seu corpo. Era um perfeito soneto, dois quartetos e dois tercetos escritos naquela bela pele moreno-claro, tão lisa e tão suave que me enlouqueceram quando notei a textura e o cheiro sutil que dali exalava. Era mais bela ainda nua.

Deitou-se após tomar um pequeno comprimido para dormir. Eu, sentei-me a frente da cama, acendi um cigarro e abri um vinho tinto para aproveitar o momento. Era linda, perfeitamente linda com aqueles olhos fechados, aquele jeito infantil de dormir e de sonhar com o seu namorado sem graça, era magistral a forma com a qual ela passava o braço de um lado para o outro da cama procurando a melhor posição. Não me contive de prazer nesses momentos inesquecíveis. Deitei-me então ao seu lado e fiz as maiores e mais absurdas promessas de amor que eu já fiz. Recitei versos de amor total e dedicação exclusiva para ela. E chorei de imaginar que nunca a teria. Tive vontade de acordá-la, de propor uma fuga, de falar para ela o quanto eu estava a amando mais do que tudo. Tive vontade de gritar para o mundo o meu amor por aquela bela mulher. Versei enlouquecidamente naquela noite. E chorei a frieza da minha realidade.

Ao amanhacer, exausto e realizado com o prazer que tinha sido vê-la nua dormindo no meu quarto, preparei um café da manhã caprichado com tudo o que eu sabia que ela gostava, como um último mimo a essa menina que eu eu veria apenas uma vez daquele jeito. Servi o café na cama dela, acompanhado com alguns versos meus e o dinheiro devido. Ela comeu aquilo tudo, guardou meus versos e o dinheiro, disse-me para ficar bem e me cuidar e foi embora. Simplesmente foi embora como se nada tivesse acontecido.

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