A CPMI

Era uma tarde quente na capital federal. No Palácio da Alvorada estavam o Presidente e dois políticos de sua confiança numa reunião com líderes da oposição. Discutiam medidas econômicas de interesse crucial para os oposicionistas que envolvia taxas de mercado e investimentos internos no país. A reunião seguia tensa. De repente, eis que surge um barulho estranho, um fétido cheiro sobe. Constrangimento na sala. Os políticos se olham esbugalhados. Só havia eles na sala e ela estava completamente fechada e com o ar-condicionado ligado. O cheiro se torna mais forte. Ninguém mais aguenta ficar na sala. A reunião é cancelada sob constrangimento de todos.

O outro dia amanhece tenso na Câmara Federal. O principal líder da oposição pediu a voz numa das cansativas e chatas plenárias do congresso e bradou uma acusação feroz contra o presidente. Ele teria soltado uma flatulência na sala para impedir o andamento da reunião e prejudicar os oposicionistas. "Uma atitude de puro malcaratismo" resume o deputado. A oposição o acompanhou e logo uns exigiam a instalção de uma CPMI para investigar as causas do acontecido. A situação protestava, dizia-se que não teria como provar que fora o presidente o autor de tal ato, mas que poderia ser qualquer um dos presentes na sala. Inclusive os parlamentares da oposição.

A balbúrdia, à essa altura, chegara ao senado. Um dos líderes da oposição estava na reunião e garantiu, em plenária, que nenhum dos seus correligionários era o autor do ato. Um dos homens de confiança do presidente subiu a plenária e acusou, furiosamente, a oposição de leviana e afirmou que ninguém da situação fora responsável pelo constrangimento. A situação se tornou tensa. A oposição se reuniu para garantir a força política para a abertura de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito a fim de investigar o caso.

A mídia se deliciou. Nos principais jornais impressos do país aparecia, em off, depoimento de pessoas próximas ao presidente que garantiam que ele houvera comido batata-doce e ovo na hora do almoço. Uma combinação que pode dar resultados catastróficos, garantiam os especialistas. As principais revistas estampavam na capa títulos que eram embasados em pesquisadores famosos da flatulência, doutores do intestino e colocavam revelações da dieta presidencial. As mais conservadoras chegavam a acusar o presidente de mal modos e de ter fontes que comprovam que o presidente teria o hábito de "soltar pequenas flatulências em reuniões importantes". Nos telejornais, o apresentador com aquela cara de sério, chamava matérias investigativas que procuravam o cerne do ocorrido e que queriam decifrar os motivos que levara o presidente a soltar aquela flatulência. Para mídia era claro, a sociedade precisava de respostas. Precisava-se da CPMI do Peido.

Mesmo com toda a articulação política da oposição para a CPMI da Flatulência, ela não passou na plenária do congresso. Logo estavam eles, a oposição, bradando feito cão raivoso, acusando o governo de abafar a CPMI. A mídia seguiu o embalo e emplacou, nas suas principais notícias, o fato de que a CPMI da Flatulência não ter sido instaurado por pressão governista. Os mais indignados pronunciavam-se dizendo que a opinião pública precisava de respostas. Enquanto isso, o povo de nada entendia e se perguntava "o que diabos é CPMI?". A briga se tornou intensa, a oposição entrou no Superior Tribunal de Justiça para conseguir a aprovação da CPMI.

O senado não esperou pela aprovação do STF e encaminhou para a plenária a sua proposta. Enquanto isso a mídia televisiva fazia simulações, em computador, do acontecido e mostrava para o povo brasileiro o grau de malcaratismo que tinha naquilo tudo. No senado, a oposição era mais forte e conseguiu a aprovação. Teve início então a CPMI do Peido, que derrubou o Presidente da República.

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